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Soja em Chicago: como a bolsa chega ao preço da ração

há 10 minutos
7 min de leitura

Resposta rápida

O preço da soja na bolsa de Chicago, em centavos de dólar por bushel, é a principal referência mundial. No Brasil, o preço da saca no porto de Paranaguá resulta de três peças: Chicago, o dólar e a diferença que o mercado paga no porto em relação a Chicago, que inclui o prêmio. Em 20 anos de dados mensais, de 2006 a 2026, as variações de Chicago tiveram contribuição estimada de cerca de 61% para a variância das variações mensais do preço da soja em Paranaguá; o câmbio, de cerca de 18%; e a diferença em relação à paridade, que inclui o prêmio e outros fatores, de cerca de 22%. Do grão, o preço passa ao farelo de soja, principal fonte de proteína da ração, e a ração é o maior custo da produção de frangos e suínos.

Do pregão de Chicago à saca no Brasil

A soja é negociada na bolsa de Chicago (CBOT, do grupo CME) em centavos de dólar por bushel. Um bushel de soja equivale a 27,2155 kg, então uma saca de 60 kg tem cerca de 2,2 bushels. A conta que transforma Chicago em reais por saca é:

preço em Chicago (US$ por bushel) × 2,2046 bushels por saca × dólar (R$ por US$)

O resultado é o que chamamos aqui de paridade de Chicago: quanto a saca valeria em reais só com a cotação da bolsa e o câmbio. O preço efetivo no porto é diferente da paridade, para mais ou para menos. Essa diferença reflete o prêmio de exportação pago no porto em relação à bolsa e outros fatores, como frete, qualidade e momento de embarque.

Quanto pesa cada peça

Decompusemos a variação mensal do preço da soja em Paranaguá, medido pelo Cepea, nas variações de Chicago, do dólar e da diferença em relação à paridade, usando 243 pares de meses consecutivos, de abril de 2006 a setembro de 2026: são 246 meses de calendário; sem maio de 2026, ficam 245 meses observados com as três séries, e 243 pares de meses consecutivos, porque a lacuna de maio tira os pares de abril para maio e de maio para junho.

Peça

Contribuição estimada para a variância das variações mensais do preço em Paranaguá

Chicago

cerca de 61%

Dólar

cerca de 18%

Diferença em relação à paridade (prêmio e demais fatores)

cerca de 22%

Cálculo AniVertis com dados mensais do Cepea (soja Paranaguá), da bolsa de Chicago e do Banco Central (dólar PTAX de venda). A variação logarítmica mensal do preço em Paranaguá é a soma exata das variações de Chicago, do dólar e da diferença em relação à paridade. A participação de cada parcela foi medida pela covariância dela com a variação total, dividida pela variância da variação total (β = cov(parcela, total) ÷ var(total)); por isso as três participações somam 100% (61% + 18% + 22% = 101% pelo arredondamento). Não é uma divisão da variância em parcelas independentes: as variações de Chicago e do dólar têm correlação de −0,41.

Chicago é a peça principal, mas não explica tudo sozinha. Em nível, o preço em Paranaguá e a paridade de Chicago em reais tiveram correlação de 0,99. Já com Chicago em dólares, sem converter pelo câmbio, a correlação cai para 0,44. Para entender o preço da soja no Brasil, olhar Chicago sem olhar o dólar não basta.

O dólar amortece Chicago

Um detalhe dos dados explica por que o preço em reais costuma oscilar menos do que se esperaria. Nos 243 pares de meses consecutivos analisados, a variação mensal de Chicago e a do dólar tiveram correlação de −0,41. Na amostra, altas em Chicago coincidiram, em média, com valorização do real, e vice-versa. É um padrão observado, não uma relação estável ou previsível.

O exemplo mais claro é a comparação entre 2008 e 2020:

Ano

Chicago (US¢/bushel)

Dólar (R$)

Soja em Paranaguá (R$/saca)

2008

1.234

1,83

48,4

2020

952

5,16

121,3

2022

1.550

5,16

188,8

2025

1.039

5,59

136,5

Médias anuais. Fontes: Cepea, bolsa de Chicago e Banco Central. Organização: AniVertis.

Em 2020, a soja estava mais barata em Chicago do que em 2008, mas a saca em Paranaguá valia duas vezes e meia mais, porque o dólar quase triplicou.

A diferença no porto também se move

Na média de 20 anos, o preço em Paranaguá ficou cerca de 5% acima da paridade de Chicago. Mas essa diferença variou bastante: o maior valor da série foi em outubro de 2018, com o porto 27% acima da paridade, e o menor em abril de 2023, com o porto 12% abaixo. Em setembro de 2026 (parcial, com médias até meados de setembro), a saca em Paranaguá estava 9% acima da paridade.

Por isso, quem acompanha só Chicago e o dólar pode errar a leitura do preço local. A diferença no porto tem contribuição estimada de cerca de um quinto da variância das variações mensais.

Do grão ao farelo

A soja esmagada vira óleo e farelo, dois coprodutos planejados do mesmo processo. O farelo é a principal fonte de proteína vegetal da ração. O preço do farelo no Brasil também acompanha a bolsa: entre 2021 e março de 2026, o farelo em Mato Grosso, pelo Imea, teve correlação de 0,92 nos níveis e de 0,64 nas variações mensais com o farelo negociado em Chicago convertido em reais (62 pares de meses).

E o milho?

O milho é a principal fonte de energia da ração e também tem referência em Chicago. Mas o preço brasileiro depende menos da bolsa do que o da soja. Entre 2006 e 2026, o milho em Campinas, medido pelo Cepea, teve correlação de 0,95 com a paridade de Chicago em reais nos níveis de preço, mas a contribuição estimada de Chicago e do dólar, somadas, para a variância das variações mensais do preço em Campinas foi de cerca de 46% (245 pares de meses). Na soja em Paranaguá, a mesma soma foi de cerca de 79%. O restante reflete fatores que a bolsa não captura, como a safra brasileira, a demanda interna de ração e de etanol de milho e o frete; os dados desta análise não separam o peso de cada um.

Da proteína à ração

A ração é o maior custo da produção de animais. Segundo a Embrapa Suínos e Aves, em dezembro de 2025 a ração respondeu por 71,67% do custo de produção do suíno em Santa Catarina e por 62,96% do custo do frango de corte no Paraná (AGROLINK, 2026). Como o farelo de soja e o milho são os principais ingredientes, o que acontece em Chicago e no câmbio chega, com intermediações, ao custo de quem produz carne.

A cadeia não é mecânica em todos os elos. No texto sobre a farinha de carne, mostramos que a variação mensal do farelo praticamente não acompanhou a da farinha de carne e ossos, que tem dinâmica própria. Os detalhes estão em Preço da farinha de carne: o que move o valor por tonelada.

O que observar

  1. Chicago: a cotação da soja e do farelo na bolsa.

  2. Dólar: ele pode amplificar ou compensar Chicago.

  3. Prêmio no porto: a diferença entre o porto e a bolsa, que oscila com a demanda de exportação.

  4. Farelo no mercado interno: a referência regional de quem compra proteína.

  5. Milho: a principal fonte de energia da ração, mais ligado ao mercado interno do que a soja.

Conclusão

Chicago é a peça principal do preço da soja no Brasil, mas não é a única. Em 20 anos, a bolsa teve contribuição estimada de cerca de 61% para a variância das variações mensais do preço em Paranaguá, e o dólar e a diferença em relação à paridade, do restante. Na amostra, o dólar se moveu em média em sentido contrário a Chicago, o que compensou parte dos choques da bolsa. Para quem formula ração, acompanhar as três peças, e não só a bolsa, é o que explica o custo do farelo.

Perguntas frequentes

Como converter o preço da soja em Chicago para reais por saca? Multiplique o preço em dólares por bushel por 2,2046, que é o número de bushels numa saca de 60 kg, e pelo dólar do dia. O resultado é a paridade de Chicago; o preço no porto ainda inclui o prêmio e outros fatores.

Por que a soja sobe em Chicago e a saca no Brasil não acompanha? Porque o dólar e o prêmio também se movem. Em 20 anos de dados, a variação de Chicago e a do dólar tiveram correlação de −0,41: em média, altas em Chicago coincidiram com valorização do real. É um padrão observado, não uma relação estável ou previsível.

O que é prêmio de porto? É o valor negociado no porto em relação à referência da bolsa. Na comparação usada neste artigo, a diferença entre o preço em Paranaguá e a paridade de Chicago também pode refletir outros fatores, como frete, qualidade e momento de embarque. Na média de 2006 a 2026, o preço em Paranaguá ficou cerca de 5% acima da paridade de Chicago.

Farelo de soja e farinha de carne competem? Sim, pela proteína da ração, mas os preços não andam juntos mês a mês. Veja o texto sobre o preço da farinha de carne.

Quanto a ração pesa no custo do frango e do suíno? Segundo a Embrapa Suínos e Aves, em dezembro de 2025 a ração foi 62,96% do custo do frango de corte no Paraná e 71,67% do custo do suíno em Santa Catarina.

Leia também

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Referências

Dados do setor

  • EMBRAPA SUÍNOS E AVES. Central de Inteligência de Aves e Suínos (CIAS): custos de produção de suínos (ICPSuíno) e de frangos de corte (ICPFrango), dezembro de 2025. Concórdia: Embrapa Suínos e Aves, 2026. Acessar a fonte. Acesso em: 28 out. 2026.

Artigos e livros técnicos

  • AGROLINK. Custos de produção de suínos e frangos variam em 2025. Porto Alegre: Agrolink, 13 jan. 2026. Acessar a fonte. Acesso em: 1 out. 2026.

  • Fontes dos dados: Cepea/Esalq-USP (soja em grão, Paranaguá, e milho, Campinas, R$/saca, médias mensais de 2006 a set/2026); CME Group/CBOT (soja, farelo de soja e milho, contrato de vencimento mais próximo, abr/2006 a set/2026); Banco Central do Brasil (dólar PTAX de venda, SGS); Imea (farelo de soja, MT, jan/2021 a mar/2026). Os arquivos de conferência dos cálculos são mantidos pela AniVertis e não acompanham esta publicação.

Versão de referência. Este texto está depositado no Zenodo como Série Técnica AniVertis nº 07/2026 (versão 1.0, 28 de outubro de 2026), DOI 10.5281/zenodo.23749919; todas as versões: 10.5281/zenodo.23749918. Para citação, use a versão depositada.

 
 
 

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