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Sebo bovino e biodiesel: o que move o preço do sebo

há 14 minutos
10 min de leitura

Resposta rápida

O sebo bovino é a gordura extraída das partes não comestíveis do abate de bovinos. O Brasil produziu 1,49 milhão de toneladas em 2025 (ABRA, 2026). Ele vai para ração, sabões, oleoquímica e biodiesel. Em 2025, 34,6% das gorduras de origem animal produzidas no país foram para o biodiesel, e na matriz de matéria-prima do biodiesel brasileiro a gordura bovina respondeu por 6,7% (ABRA, 2026). Entre 2021 e 2026, o preço do sebo andou muito perto do preço do óleo de soja e do biodiesel: a correlação dos níveis de preço foi de 0,95 com o óleo de soja e de 0,93 com o biodiesel. Com a série americana de sebo, a relação foi bem mais fraca. O Índice AniVertis, feito com cerca de 4,8 mil notas fiscais de venda, mede o preço efetivamente praticado nas vendas de sebo no mercado interno.

O que é o sebo

Pelo Compêndio Brasileiro de Alimentação Animal, sebo bovino é o produto da extração de gorduras das partes não comestíveis de ruminantes. O padrão exige no mínimo 96% de gordura, no máximo 4% de umidade, impurezas e insaponificáveis, acidez de até 6% e índice de peróxido de até 5 meq/kg. O índice de iodo, relacionado ao grau de insaturação da gordura, fica entre 35 e 50 (SINDIRAÇÕES, 2023).

Na prática comercial acompanhada pela AniVertis, a acidez é um dos parâmetros que mais pesam na negociação. Ela indica a hidrólise da gordura e ajuda a revelar o histórico da matéria-prima e as condições de processamento e armazenamento. O que é o sebo dentro do conjunto de ingredientes de origem animal está em Ingredientes de origem animal: tipos, usos e preço.

Na alimentação animal, o sebo é proibido para ruminantes, como toda gordura de origem animal (BRASIL, 2004).

Para onde vai o sebo

O sebo tem mais de um comprador possível, e isso define seu preço. Ele concorre com outras gorduras e óleos em quatro mercados:

  1. Biodiesel. São duas medidas diferentes. Pelo lado do sebo: em 2025, o biodiesel recebeu 34,6% das gorduras de origem animal produzidas no Brasil, cerca de 726 mil toneladas, atrás apenas da saboaria, com 39,5% (ABRA, 2026). Esse total inclui sebo bovino, gordura suína, óleo de aves e óleo de peixe. Pelo lado do biodiesel: na matriz de matéria-prima do biodiesel brasileiro de 2025, a gordura bovina respondeu por 6,7%, e todas as gorduras animais somadas por 8,5%; o óleo de soja respondeu por 73,3%, e outros materiais graxos por 13,6% (ABRA, 2026). Em 2024, a gordura bovina tinha sido 5,6% dessa matriz (EPE, 2025).

  2. Oleoquímica e sabões. Ácidos graxos, sabões, lubrificantes e derivados.

  3. Ração. Fonte de energia em rações de aves, suínos e animais de estimação.

  4. Exportação. O sebo também é vendido para fora do país.

A mistura obrigatória de biodiesel

O percentual de biodiesel no diesel é definido em lei. A Lei do Combustível do Futuro estabeleceu metas de 15% a partir de março de 2025, subindo um ponto por ano até 20% em março de 2030. O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) avalia a viabilidade das metas e fixa o percentual efetivo entre 13% e 25% (BRASIL, 2024). A meta legal não é o percentual em vigor: segundo reportagem de agosto de 2026 com o Ministério de Minas e Energia, a mistura obrigatória era de 15% (B15), a alta para 16% prevista para março de 2026 não havia sido aplicada, e o governo testa misturas de 16% a 25% em ensaios previstos até fevereiro de 2027 (NOTÍCIAS AGRÍCOLAS, 2026). Até a data desta revisão, não localizamos ato posterior do CNPE que altere esse percentual. Mais biodiesel misturado ao diesel amplia a demanda total por matérias-primas graxas; quanto dessa demanda chega ao sebo depende de sua competitividade frente ao óleo de soja e às demais matérias-primas.

Cinco anos de preços

A AniVertis acompanha o sebo por quatro séries, mais o óleo de soja e o biodiesel:

Série

O que mede

Período no painel

Cotação de mercado, sebo

referência mensal

jan/2021 a mar/2026

Cotação de mercado, sebo Brasil Central

referência semanal

abr/2024 a out/2026

ABISA, sebo bruto

CIF São Paulo

jan/2017 a out/2026

Índice AniVertis de transações

notas fiscais de venda

jan/2022 a set/2026

Imea, óleo de soja

Mato Grosso

jan/2021 a out/2026

ANP, biodiesel B100

preço do produtor, sem ICMS

jan/2022 a out/2026

Alguns momentos da trajetória, em R$ por tonelada:

Mês

Sebo (cotação de mercado)

Óleo de soja (Imea)

Biodiesel B100 (ANP)

Abr/2022

7.729

8.229

7.879

Jun/2023

3.709

4.189

4.458

Jan/2024

4.310

4.214

4.916

Jan/2025

5.745

6.178

6.914

Mar/2026

5.240

5.783

5.852

Médias mensais. Fontes: cotação de mercado, Imea e ANP (créditos completos nas Referências). Organização: AniVertis.

O sebo perdeu mais da metade do valor entre abril de 2022 e junho de 2023 e depois se recuperou. O óleo de soja e o biodiesel fizeram praticamente o mesmo caminho.

Em outubro de 2026, a cotação de mercado do sebo no Brasil Central subiu de R$ 5.900/t, na primeira semana, para R$ 6.000/t em 16/10; o sebo bruto CIF São Paulo da ABISA estava em R$ 6.900/t em 20/10. No mesmo mês, o óleo de soja do Imea, em Mato Grosso, ficou em R$ 6.268/t em 15/10, e o biodiesel B100 da ANP, em R$ 6.391/t na semana de 11/10. Preços de referência publicados pelas fontes nas datas indicadas, que podem não refletir o preço do dia. São referências com bases comerciais e tributárias distintas (sebo entregue em São Paulo, óleo de soja em Mato Grosso, biodiesel no produtor sem ICMS) e não devem ser comparadas como se fossem o mesmo preço.

O sebo segue o óleo de soja e o biodiesel

Comparamos a cotação de mercado do sebo com o óleo de soja, o biodiesel e o sebo americano:

Comparação

Meses em comum

Correlação dos níveis

Pares consecutivos nas variações

Correlação das variações mensais

Sebo x óleo de soja (Imea)

63

0,95

62

0,55

Sebo x biodiesel B100 (ANP)

51

0,93

50

0,59

Sebo x sebo ABISA (CIF SP)

63

0,98

62

0,81

Sebo x sebo americano (USDA)

34

0,60

25

0,31

Cálculo AniVertis. Correlação de Pearson; variações percentuais só entre meses consecutivos. As comparações não usam a mesma amostra: a série americana tem menos meses e cobertura irregular, e por isso seu coeficiente não é diretamente comparável aos das séries brasileiras.

Este é o contraste central com a farinha de carne. Farinha e farelo de soja tiveram correlação de 0,78 nos níveis, mas de apenas 0,04 nas variações mensais. Sebo e óleo de soja tiveram 0,95 e 0,55; sebo e biodiesel, 0,93 e 0,59. Dois produtos da mesma reciclagem animal podem ter mecanismos de preço bastante diferentes: a farinha tem dinâmica mensal muito própria, e o sebo está conectado, inclusive mês a mês, ao complexo doméstico de óleos e biocombustíveis. No período analisado, as séries domésticas apresentaram associação mais forte com a cotação de mercado do sebo do que a referência americana, que tem cobertura irregular e só 25 pares de meses consecutivos.

Também testamos defasagens, só entre meses de calendário consecutivos. A variação do óleo de soja num mês teve correlação de 0,57 com a variação do sebo no mês seguinte (61 pares); no sentido inverso, 0,27 (61 pares). A variação do biodiesel teve correlação de 0,51 com a do sebo no mês seguinte (49 pares); no sentido inverso, 0,06 (51 pares). No período analisado, portanto, as mudanças no óleo de soja e no biodiesel apresentaram associação com o sebo do mês seguinte. A diferença entre os dois sentidos não demonstra que o óleo de soja ou o biodiesel liderem o preço do sebo, e essas correlações não demonstram que o biodiesel determine o preço do sebo: o próprio biodiesel é feito principalmente de óleo de soja, e os três preços podem responder a fatores comuns. É um achado exploratório, que precisa continuar sendo acompanhado.

Em nível, a cotação de mercado do sebo ficou entre 79% e 111% do preço do óleo de soja do Imea no período. Na maior parte do tempo, o sebo é uma gordura mais barata que o óleo de soja, mas não muito.

Por que sebo e óleo de soja competem, mas não são iguais

A relação de preços tem uma explicação técnica. Sebo e óleo de soja são matérias-primas para biodiesel, mas não são equivalentes. O sebo tem grande proporção de ácidos graxos saturados: pelo perfil de referência do Compêndio, palmítico, esteárico e mirístico somam cerca de 41% (SINDIRAÇÕES, 2023). O óleo de soja é bem mais insaturado.

Essa diferença muda o combustível. Quanto mais ésteres saturados, pior o comportamento do biodiesel em baixas temperaturas, com mais tendência a cristalizar e a entupir filtros. Num estudo da Universidade Federal da Paraíba com biodiesel de misturas de sebo, óleo de soja e óleo de babaçu, os pontos de névoa, de entupimento de filtro a frio e de fluidez foram maiores na amostra com mais estearato de metila, éster típico do sebo, e melhores nas amostras com mais soja ou babaçu. Todas as amostras, porém, atenderam às especificações da ANP (TEIXEIRA et al., 2011).

Na prática, preço não é o único critério de substituição. A competitividade do sebo frente ao óleo de soja depende também da composição e da qualidade do sebo, da formulação usada pela usina e das especificações que o biodiesel final precisa atender. O sebo não é um "óleo de soja mais barato": é uma matéria-prima concorrente e combinável, com propriedades próprias.

O Índice AniVertis de sebo

A AniVertis também organiza uma base própria de notas fiscais de venda de sebo bovino no mercado interno, sem identificação de vendedor ou comprador.

Item

Índice AniVertis de sebo

Período

53 meses com dados, no intervalo de jan/2022 a set/2026

Notas fiscais de venda no mercado interno

cerca de 4,8 mil

Volume

cerca de 176 mil toneladas

Medida

mediana mensal dos preços unitários das notas, em R$/t, sem ponderação por volume

Fonte: base de transações AniVertis. Vendas para exportação excluídas.

O Índice é uma medida própria: mostra o preço efetivamente praticado nas notas de venda, mês a mês, e não uma cotação publicada. Em setembro de 2026, a mediana mensal foi de R$ 5.650/t.

Ressalvas de método. A base reúne um conjunto limitado de vendedores e não representa o mercado inteiro. Há meses com poucas notas, a partir de 5, e as notas não informam a acidez de cada lote. O índice de outubro ainda não está fechado.

O que pode influenciar o preço

  1. Óleo de soja. É a principal matéria-prima do biodiesel e a gordura que o sebo substitui em vários usos.

  2. Mistura obrigatória de biodiesel. Mudanças no percentual alteram a demanda por gorduras.

  3. Oferta de abate. O sebo depende do abate de bovinos.

  4. Exportação e câmbio. O sebo também tem mercado externo.

  5. Especificação do lote. Acidez, umidade e impurezas entram na negociação de cada carga.

Conclusão

Nos períodos observados, as séries brasileiras de óleo de soja, biodiesel e sebo apresentaram correlações mais elevadas com a cotação do sebo do que a referência americana, inclusive mês a mês. Como as coberturas diferem, essa comparação deve ser interpretada com cautela. É o oposto da farinha de carne, cuja variação mensal praticamente não acompanhou o farelo de soja. Para quem vende sebo, acompanhar o óleo de soja, o mercado de biodiesel e a mistura obrigatória ajuda a entender a referência de preço; oferta de matéria-prima, exportação e especificação do lote completam essa leitura. Para quem compra, a acidez e a especificação de cada lote continuam fazendo a diferença dentro dessa referência.

Perguntas frequentes

Qual é o preço do sebo bovino hoje? Não existe cotação oficial única. Em 16 de outubro de 2026, a cotação de mercado do sebo no Brasil Central estava em R$ 6.000/t, e o sebo bruto CIF São Paulo da ABISA, em R$ 6.900/t em 20 de outubro. Em setembro, o Índice AniVertis de transações teve mediana de R$ 5.650/t.

Quanto do biodiesel brasileiro vem do sebo? Na matriz de matéria-prima do biodiesel brasileiro, a gordura bovina respondeu por 6,7% em 2025, e o óleo de soja por 73,3% (ABRA, 2026). Pelo lado do sebo, 34,6% das gorduras de origem animal produzidas no país foram para o biodiesel (ABRA, 2026).

Por que o preço do sebo pode acompanhar o óleo de soja? Os dois são matérias-primas graxas que podem disputar espaço em mercados como o biodiesel. Nos dados de 2021 a 2026, essa relação apareceu com correlação de 0,95 nos níveis mensais de preço e de 0,55 nas variações mensais. Correlação não prova que um preço cause o outro.

O aumento da mistura de biodiesel aumenta o preço do sebo? Mais biodiesel no diesel aumenta a demanda por óleos e gorduras. O efeito no preço do sebo depende também da oferta de óleo de soja, do câmbio e da exportação.

Sebo pode ir para ração de boi? Não. No Brasil, proteínas e gorduras de origem animal são proibidas na alimentação de ruminantes (BRASIL, 2004).

Leia também

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Referências

Legislação e normas brasileiras

  • BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 8, de 25 de março de 2004. Proíbe em todo o território nacional a produção, a comercialização e a utilização de produtos destinados à alimentação de ruminantes que contenham em sua composição proteínas e gorduras de origem animal. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 5, 26 mar. 2004. Acessar a fonte. Acesso em: 30 set. 2026.

  • BRASIL. Lei nº 14.993, de 8 de outubro de 2024. Dispõe sobre a promoção da mobilidade sustentável de baixo carbono e a captura e a estocagem geológica de dióxido de carbono (Lei do Combustível do Futuro). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 2024. Acessar a fonte. Acesso em: 30 set. 2026.

Dados do setor

  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RECICLAGEM ANIMAL. Anuário ABRA 2025: setor de reciclagem animal. Brasília, DF: ABRA, 2026. Acessar a fonte. Acesso em: 30 set. 2026.

  • SINDICATO NACIONAL DA INDÚSTRIA DE ALIMENTAÇÃO ANIMAL. Compêndio brasileiro de alimentação animal 2023. São Paulo: Sindirações, 2023. Cap. 2 (Ingredientes e matérias-primas), p. 57-58.

Artigos e livros técnicos

  • EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA. Análise de conjuntura dos biocombustíveis: ano base 2024. Rio de Janeiro: EPE, 2025. Acessar a fonte. Acesso em: 30 set. 2026.

  • NOTÍCIAS AGRÍCOLAS. Por que o Brasil ainda discute o B16 enquanto a Indonésia já está no B50? Notícias Agrícolas, 20 ago. 2026. Acessar a fonte. Acesso em: 22 out. 2026.

  • TEIXEIRA, G. A. A.; MAIA, A. S.; SANTOS, I. M. G.; SOUZA, A. L.; SOUZA, A. G.; QUEIROZ, N. Biodiesels from beef tallow/soybean oil/babassu oil blends. Journal of Thermal Analysis and Calorimetry, Dordrecht, v. 106, n. 2, p. 563-567, 2011. DOI: https://doi.org/10.1007/s10973-011-1626-2. Acesso em: 30 set. 2026.

  • Fontes de mercado (painel AniVertis): Scot Consultoria (sebo bovino, série mensal jan/2021 a mar/2026; sebo Brasil Central, série semanal abr/2024 a out/2026); ABISA (sebo bruto CIF São Paulo, jan/2017 a out/2026); Imea — Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (óleo de soja, MT, jan/2021 a out/2026); ANP — Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (biodiesel B100, preço do produtor sem ICMS, jan/2022 a out/2026); USDA AMS (sebo bovino packer, EUA, set/2022 a set/2026); Índice AniVertis de transações (notas fiscais de venda de sebo bovino, mercado interno, jan/2022 a set/2026).

 
 
 

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