Sebo bovino e biodiesel: o que move o preço do sebo
Resposta rápida
O sebo bovino é a gordura extraída das partes não comestíveis do abate de bovinos. O Brasil produziu 1,49 milhão de toneladas em 2025 (ABRA, 2026). Ele vai para ração, sabões, oleoquímica e biodiesel. Em 2025, 34,6% das gorduras de origem animal produzidas no país foram para o biodiesel, e na matriz de matéria-prima do biodiesel brasileiro a gordura bovina respondeu por 6,7% (ABRA, 2026). Entre 2021 e 2026, o preço do sebo andou muito perto do preço do óleo de soja e do biodiesel: a correlação dos níveis de preço foi de 0,95 com o óleo de soja e de 0,93 com o biodiesel. Com a série americana de sebo, a relação foi bem mais fraca. O Índice AniVertis, feito com cerca de 4,8 mil notas fiscais de venda, mede o preço efetivamente praticado nas vendas de sebo no mercado interno.
O que é o sebo
Pelo Compêndio Brasileiro de Alimentação Animal, sebo bovino é o produto da extração de gorduras das partes não comestíveis de ruminantes. O padrão exige no mínimo 96% de gordura, no máximo 4% de umidade, impurezas e insaponificáveis, acidez de até 6% e índice de peróxido de até 5 meq/kg. O índice de iodo, relacionado ao grau de insaturação da gordura, fica entre 35 e 50 (SINDIRAÇÕES, 2023).
Na prática comercial acompanhada pela AniVertis, a acidez é um dos parâmetros que mais pesam na negociação. Ela indica a hidrólise da gordura e ajuda a revelar o histórico da matéria-prima e as condições de processamento e armazenamento. O que é o sebo dentro do conjunto de ingredientes de origem animal está em Ingredientes de origem animal: tipos, usos e preço.
Na alimentação animal, o sebo é proibido para ruminantes, como toda gordura de origem animal (BRASIL, 2004).
Para onde vai o sebo
O sebo tem mais de um comprador possível, e isso define seu preço. Ele concorre com outras gorduras e óleos em quatro mercados:
Biodiesel. São duas medidas diferentes. Pelo lado do sebo: em 2025, o biodiesel recebeu 34,6% das gorduras de origem animal produzidas no Brasil, cerca de 726 mil toneladas, atrás apenas da saboaria, com 39,5% (ABRA, 2026). Esse total inclui sebo bovino, gordura suína, óleo de aves e óleo de peixe. Pelo lado do biodiesel: na matriz de matéria-prima do biodiesel brasileiro de 2025, a gordura bovina respondeu por 6,7%, e todas as gorduras animais somadas por 8,5%; o óleo de soja respondeu por 73,3%, e outros materiais graxos por 13,6% (ABRA, 2026). Em 2024, a gordura bovina tinha sido 5,6% dessa matriz (EPE, 2025).
Oleoquímica e sabões. Ácidos graxos, sabões, lubrificantes e derivados.
Ração. Fonte de energia em rações de aves, suínos e animais de estimação.
Exportação. O sebo também é vendido para fora do país.
A mistura obrigatória de biodiesel
O percentual de biodiesel no diesel é definido em lei. A Lei do Combustível do Futuro estabeleceu metas de 15% a partir de março de 2025, subindo um ponto por ano até 20% em março de 2030. O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) avalia a viabilidade das metas e fixa o percentual efetivo entre 13% e 25% (BRASIL, 2024). A meta legal não é o percentual em vigor: segundo reportagem de agosto de 2026 com o Ministério de Minas e Energia, a mistura obrigatória era de 15% (B15), a alta para 16% prevista para março de 2026 não havia sido aplicada, e o governo testa misturas de 16% a 25% em ensaios previstos até fevereiro de 2027 (NOTÍCIAS AGRÍCOLAS, 2026). Até a data desta revisão, não localizamos ato posterior do CNPE que altere esse percentual. Mais biodiesel misturado ao diesel amplia a demanda total por matérias-primas graxas; quanto dessa demanda chega ao sebo depende de sua competitividade frente ao óleo de soja e às demais matérias-primas.
Cinco anos de preços
A AniVertis acompanha o sebo por quatro séries, mais o óleo de soja e o biodiesel:
Série | O que mede | Período no painel |
|---|---|---|
Cotação de mercado, sebo | referência mensal | jan/2021 a mar/2026 |
Cotação de mercado, sebo Brasil Central | referência semanal | abr/2024 a out/2026 |
ABISA, sebo bruto | CIF São Paulo | jan/2017 a out/2026 |
Índice AniVertis de transações | notas fiscais de venda | jan/2022 a set/2026 |
Imea, óleo de soja | Mato Grosso | jan/2021 a out/2026 |
ANP, biodiesel B100 | preço do produtor, sem ICMS | jan/2022 a out/2026 |
Alguns momentos da trajetória, em R$ por tonelada:
Mês | Sebo (cotação de mercado) | Óleo de soja (Imea) | Biodiesel B100 (ANP) |
|---|---|---|---|
Abr/2022 | 7.729 | 8.229 | 7.879 |
Jun/2023 | 3.709 | 4.189 | 4.458 |
Jan/2024 | 4.310 | 4.214 | 4.916 |
Jan/2025 | 5.745 | 6.178 | 6.914 |
Mar/2026 | 5.240 | 5.783 | 5.852 |
Médias mensais. Fontes: cotação de mercado, Imea e ANP (créditos completos nas Referências). Organização: AniVertis.
O sebo perdeu mais da metade do valor entre abril de 2022 e junho de 2023 e depois se recuperou. O óleo de soja e o biodiesel fizeram praticamente o mesmo caminho.
Em outubro de 2026, a cotação de mercado do sebo no Brasil Central subiu de R$ 5.900/t, na primeira semana, para R$ 6.000/t em 16/10; o sebo bruto CIF São Paulo da ABISA estava em R$ 6.900/t em 20/10. No mesmo mês, o óleo de soja do Imea, em Mato Grosso, ficou em R$ 6.268/t em 15/10, e o biodiesel B100 da ANP, em R$ 6.391/t na semana de 11/10. Preços de referência publicados pelas fontes nas datas indicadas, que podem não refletir o preço do dia. São referências com bases comerciais e tributárias distintas (sebo entregue em São Paulo, óleo de soja em Mato Grosso, biodiesel no produtor sem ICMS) e não devem ser comparadas como se fossem o mesmo preço.
O sebo segue o óleo de soja e o biodiesel
Comparamos a cotação de mercado do sebo com o óleo de soja, o biodiesel e o sebo americano:
Comparação | Meses em comum | Correlação dos níveis | Pares consecutivos nas variações | Correlação das variações mensais |
|---|---|---|---|---|
Sebo x óleo de soja (Imea) | 63 | 0,95 | 62 | 0,55 |
Sebo x biodiesel B100 (ANP) | 51 | 0,93 | 50 | 0,59 |
Sebo x sebo ABISA (CIF SP) | 63 | 0,98 | 62 | 0,81 |
Sebo x sebo americano (USDA) | 34 | 0,60 | 25 | 0,31 |
Cálculo AniVertis. Correlação de Pearson; variações percentuais só entre meses consecutivos. As comparações não usam a mesma amostra: a série americana tem menos meses e cobertura irregular, e por isso seu coeficiente não é diretamente comparável aos das séries brasileiras.
Este é o contraste central com a farinha de carne. Farinha e farelo de soja tiveram correlação de 0,78 nos níveis, mas de apenas 0,04 nas variações mensais. Sebo e óleo de soja tiveram 0,95 e 0,55; sebo e biodiesel, 0,93 e 0,59. Dois produtos da mesma reciclagem animal podem ter mecanismos de preço bastante diferentes: a farinha tem dinâmica mensal muito própria, e o sebo está conectado, inclusive mês a mês, ao complexo doméstico de óleos e biocombustíveis. No período analisado, as séries domésticas apresentaram associação mais forte com a cotação de mercado do sebo do que a referência americana, que tem cobertura irregular e só 25 pares de meses consecutivos.
Também testamos defasagens, só entre meses de calendário consecutivos. A variação do óleo de soja num mês teve correlação de 0,57 com a variação do sebo no mês seguinte (61 pares); no sentido inverso, 0,27 (61 pares). A variação do biodiesel teve correlação de 0,51 com a do sebo no mês seguinte (49 pares); no sentido inverso, 0,06 (51 pares). No período analisado, portanto, as mudanças no óleo de soja e no biodiesel apresentaram associação com o sebo do mês seguinte. A diferença entre os dois sentidos não demonstra que o óleo de soja ou o biodiesel liderem o preço do sebo, e essas correlações não demonstram que o biodiesel determine o preço do sebo: o próprio biodiesel é feito principalmente de óleo de soja, e os três preços podem responder a fatores comuns. É um achado exploratório, que precisa continuar sendo acompanhado.
Em nível, a cotação de mercado do sebo ficou entre 79% e 111% do preço do óleo de soja do Imea no período. Na maior parte do tempo, o sebo é uma gordura mais barata que o óleo de soja, mas não muito.
Por que sebo e óleo de soja competem, mas não são iguais
A relação de preços tem uma explicação técnica. Sebo e óleo de soja são matérias-primas para biodiesel, mas não são equivalentes. O sebo tem grande proporção de ácidos graxos saturados: pelo perfil de referência do Compêndio, palmítico, esteárico e mirístico somam cerca de 41% (SINDIRAÇÕES, 2023). O óleo de soja é bem mais insaturado.
Essa diferença muda o combustível. Quanto mais ésteres saturados, pior o comportamento do biodiesel em baixas temperaturas, com mais tendência a cristalizar e a entupir filtros. Num estudo da Universidade Federal da Paraíba com biodiesel de misturas de sebo, óleo de soja e óleo de babaçu, os pontos de névoa, de entupimento de filtro a frio e de fluidez foram maiores na amostra com mais estearato de metila, éster típico do sebo, e melhores nas amostras com mais soja ou babaçu. Todas as amostras, porém, atenderam às especificações da ANP (TEIXEIRA et al., 2011).
Na prática, preço não é o único critério de substituição. A competitividade do sebo frente ao óleo de soja depende também da composição e da qualidade do sebo, da formulação usada pela usina e das especificações que o biodiesel final precisa atender. O sebo não é um "óleo de soja mais barato": é uma matéria-prima concorrente e combinável, com propriedades próprias.
O Índice AniVertis de sebo
A AniVertis também organiza uma base própria de notas fiscais de venda de sebo bovino no mercado interno, sem identificação de vendedor ou comprador.
Item | Índice AniVertis de sebo |
|---|---|
Período | 53 meses com dados, no intervalo de jan/2022 a set/2026 |
Notas fiscais de venda no mercado interno | cerca de 4,8 mil |
Volume | cerca de 176 mil toneladas |
Medida | mediana mensal dos preços unitários das notas, em R$/t, sem ponderação por volume |
Fonte: base de transações AniVertis. Vendas para exportação excluídas.
O Índice é uma medida própria: mostra o preço efetivamente praticado nas notas de venda, mês a mês, e não uma cotação publicada. Em setembro de 2026, a mediana mensal foi de R$ 5.650/t.
Ressalvas de método. A base reúne um conjunto limitado de vendedores e não representa o mercado inteiro. Há meses com poucas notas, a partir de 5, e as notas não informam a acidez de cada lote. O índice de outubro ainda não está fechado.
O que pode influenciar o preço
Óleo de soja. É a principal matéria-prima do biodiesel e a gordura que o sebo substitui em vários usos.
Mistura obrigatória de biodiesel. Mudanças no percentual alteram a demanda por gorduras.
Oferta de abate. O sebo depende do abate de bovinos.
Exportação e câmbio. O sebo também tem mercado externo.
Especificação do lote. Acidez, umidade e impurezas entram na negociação de cada carga.
Conclusão
Nos períodos observados, as séries brasileiras de óleo de soja, biodiesel e sebo apresentaram correlações mais elevadas com a cotação do sebo do que a referência americana, inclusive mês a mês. Como as coberturas diferem, essa comparação deve ser interpretada com cautela. É o oposto da farinha de carne, cuja variação mensal praticamente não acompanhou o farelo de soja. Para quem vende sebo, acompanhar o óleo de soja, o mercado de biodiesel e a mistura obrigatória ajuda a entender a referência de preço; oferta de matéria-prima, exportação e especificação do lote completam essa leitura. Para quem compra, a acidez e a especificação de cada lote continuam fazendo a diferença dentro dessa referência.
Perguntas frequentes
Qual é o preço do sebo bovino hoje? Não existe cotação oficial única. Em 16 de outubro de 2026, a cotação de mercado do sebo no Brasil Central estava em R$ 6.000/t, e o sebo bruto CIF São Paulo da ABISA, em R$ 6.900/t em 20 de outubro. Em setembro, o Índice AniVertis de transações teve mediana de R$ 5.650/t.
Quanto do biodiesel brasileiro vem do sebo? Na matriz de matéria-prima do biodiesel brasileiro, a gordura bovina respondeu por 6,7% em 2025, e o óleo de soja por 73,3% (ABRA, 2026). Pelo lado do sebo, 34,6% das gorduras de origem animal produzidas no país foram para o biodiesel (ABRA, 2026).
Por que o preço do sebo pode acompanhar o óleo de soja? Os dois são matérias-primas graxas que podem disputar espaço em mercados como o biodiesel. Nos dados de 2021 a 2026, essa relação apareceu com correlação de 0,95 nos níveis mensais de preço e de 0,55 nas variações mensais. Correlação não prova que um preço cause o outro.
O aumento da mistura de biodiesel aumenta o preço do sebo? Mais biodiesel no diesel aumenta a demanda por óleos e gorduras. O efeito no preço do sebo depende também da oferta de óleo de soja, do câmbio e da exportação.
Sebo pode ir para ração de boi? Não. No Brasil, proteínas e gorduras de origem animal são proibidas na alimentação de ruminantes (BRASIL, 2004).
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Referências
Legislação e normas brasileiras
BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 8, de 25 de março de 2004. Proíbe em todo o território nacional a produção, a comercialização e a utilização de produtos destinados à alimentação de ruminantes que contenham em sua composição proteínas e gorduras de origem animal. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 5, 26 mar. 2004. Acessar a fonte. Acesso em: 30 set. 2026.
BRASIL. Lei nº 14.993, de 8 de outubro de 2024. Dispõe sobre a promoção da mobilidade sustentável de baixo carbono e a captura e a estocagem geológica de dióxido de carbono (Lei do Combustível do Futuro). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 2024. Acessar a fonte. Acesso em: 30 set. 2026.
Dados do setor
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RECICLAGEM ANIMAL. Anuário ABRA 2025: setor de reciclagem animal. Brasília, DF: ABRA, 2026. Acessar a fonte. Acesso em: 30 set. 2026.
SINDICATO NACIONAL DA INDÚSTRIA DE ALIMENTAÇÃO ANIMAL. Compêndio brasileiro de alimentação animal 2023. São Paulo: Sindirações, 2023. Cap. 2 (Ingredientes e matérias-primas), p. 57-58.
Artigos e livros técnicos
EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA. Análise de conjuntura dos biocombustíveis: ano base 2024. Rio de Janeiro: EPE, 2025. Acessar a fonte. Acesso em: 30 set. 2026.
NOTÍCIAS AGRÍCOLAS. Por que o Brasil ainda discute o B16 enquanto a Indonésia já está no B50? Notícias Agrícolas, 20 ago. 2026. Acessar a fonte. Acesso em: 22 out. 2026.
TEIXEIRA, G. A. A.; MAIA, A. S.; SANTOS, I. M. G.; SOUZA, A. L.; SOUZA, A. G.; QUEIROZ, N. Biodiesels from beef tallow/soybean oil/babassu oil blends. Journal of Thermal Analysis and Calorimetry, Dordrecht, v. 106, n. 2, p. 563-567, 2011. DOI: https://doi.org/10.1007/s10973-011-1626-2. Acesso em: 30 set. 2026.
Fontes de mercado (painel AniVertis): Scot Consultoria (sebo bovino, série mensal jan/2021 a mar/2026; sebo Brasil Central, série semanal abr/2024 a out/2026); ABISA (sebo bruto CIF São Paulo, jan/2017 a out/2026); Imea — Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (óleo de soja, MT, jan/2021 a out/2026); ANP — Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (biodiesel B100, preço do produtor sem ICMS, jan/2022 a out/2026); USDA AMS (sebo bovino packer, EUA, set/2022 a set/2026); Índice AniVertis de transações (notas fiscais de venda de sebo bovino, mercado interno, jan/2022 a set/2026).





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