Avaliação da hipótese de origem alimentar de DNA bovino detectado em farinha de vísceras de aves
Atualizado: há 49 minutos
Versão de referência. Este post reproduz o estudo depositado no Zenodo (versão 1.0, 27 de outubro de 2026), DOI 10.5281/zenodo.23701597; todas as versões: 10.5281/zenodo.23701596. Para citação, use a versão depositada. Eventuais ajustes de formatação neste post não alteram o conteúdo do PDF associado ao DOI. Autor: Adauto Pereira Gomes Neto. |
Estudo exploratório de plausibilidade técnico-científica
Autoria: Adauto Pereira Gomes Neto (ORCID 0009-0008-5893-0573 · Lattes lattes.cnpq.br/7494833025677339) · AniVertis Soluções em Sustentabilidade Animal Ltda. · Versão 1.0 — 27 de outubro de 2026
Licença: © 2026 Adauto Pereira Gomes Neto. Este trabalho está licenciado sob a Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0): https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
Natureza do estudo: Investigação teórico-exploratória fundamentada em revisão da literatura científica, simulações de balanço de massa e avaliação dos mecanismos de degradação e detecção molecular de DNA. Não constitui laudo pericial, validação experimental ou manifestação oficial de órgão regulador.
Hipótese investigada: A presença de DNA bovino em farinha de vísceras de aves pode decorrer da utilização de farinha de carne e ossos bovina na alimentação dos frangos, mediante transferência de resíduos alimentares do trato gastrointestinal para a matéria-prima destinada à graxaria.
Objetivo: Avaliar a plausibilidade técnico-científica dessa hipótese, identificar as condições necessárias para sua ocorrência e examinar as evidências disponíveis que a sustentam ou limitam.
Delimitação: O estudo não pretende comprovar a origem do DNA bovino em um lote específico, mas investigar se a hipótese é compatível com os conhecimentos científicos disponíveis e quais evidências adicionais seriam necessárias para sua confirmação ou refutação.
Resumo
Estudo exploratório de plausibilidade técnico-científica que avalia a hipótese de que DNA bovino detectado por PCR em farinha de vísceras de aves (FVA) possa ter origem na farinha de carne e ossos (FCO) bovina utilizada na alimentação dos frangos, por meio da transferência de resíduos do conteúdo gastrointestinal para a matéria-prima da graxaria. O trabalho combina revisão direcionada da literatura, cenários hipotéticos de balanço de massa e análise dos mecanismos de degradação e detecção molecular de DNA.
As evidências publicadas sustentam, de forma indireta e etapa por etapa, mecanismos relevantes para a rota alimentar: persistência de DNA bovino amplificável em FCO processada, persistência de DNA alimentar no trato digestório de aves, conteúdo gastrointestinal residual após o jejum e possibilidade de presença de conteúdo digestivo em farinhas de subprodutos avícolas. Não foi identificada demonstração experimental da rota completa.
Conclui-se que um resultado positivo de PCR para DNA bovino em FVA não permite, isoladamente, atribuir sua origem, e indicam-se as evidências documentais e experimentais necessárias para investigar cada caso. O estudo não constitui laudo pericial, validação experimental ou manifestação oficial de órgão regulador.
Palavras-chave: DNA bovino; farinha de vísceras de aves; farinha de carne e ossos; PCR; proteína animal processada; graxaria; conteúdo gastrointestinal; rastreabilidade.
Abstract
Exploratory technical-scientific plausibility study assessing whether bovine DNA detected by PCR in poultry viscera meal (FVA) may originate from bovine meat and bone meal (MBM) fed to broilers, through carryover of gastrointestinal contents into rendering raw material. The work combines a targeted literature review, hypothetical mass-balance scenarios and an analysis of DNA degradation and molecular detection mechanisms.
Published evidence supports several individual mechanisms relevant to the proposed dietary route: persistence of amplifiable bovine DNA in processed MBM, persistence of feed-derived DNA in the broiler digestive tract, residual gastrointestinal contents after feed withdrawal, and the possible presence of digestive contents in poultry by-product meals. No experimental demonstration of the complete route was found.
A positive PCR result for bovine DNA in poultry viscera meal does not, on its own, establish the origin of that DNA; the documentary and experimental evidence needed to investigate each case is outlined. This study is not an expert report, an experimental validation or an official regulatory statement.
Keywords: bovine DNA; poultry viscera meal; meat and bone meal; PCR; processed animal protein; rendering; gastrointestinal contents; traceability.
1. Objetivo e delimitação da análise
O presente estudo tem por objetivo avaliar, sob os aspectos zootécnico, industrial, molecular e analítico, a possibilidade de detecção de DNA bovino em farinha de vísceras de aves (FVA) produzida a partir de subprodutos de frangos de corte cuja alimentação tenha incluído farinha de carne e ossos bovina (FCO).
A hipótese investigada considera que fragmentos de DNA bovino presentes na FCO utilizada na formulação das rações possam permanecer, em alguma extensão, no conteúdo gastrointestinal das aves e, posteriormente, alcançar a matéria-prima destinada à produção de FVA. Nessa circunstância, um ensaio de reação em cadeia da polimerase (PCR) suficientemente sensível poderia, em princípio, detectar sequências específicas de DNA bovino no produto final.
A análise compreende:
A origem potencial do DNA bovino na alimentação das aves;
O efeito do consumo de ração, do jejum pré-abate e do esvaziamento gastrointestinal;
A transferência potencial de resíduos alimentares para a matéria-prima da graxaria;
O balanço de massa entre consumo alimentar, conteúdo gastrointestinal residual e produção de FVA;
A degradação do DNA ao longo das etapas de processamento;
A sensibilidade e as limitações dos métodos de PCR;
A interpretação técnico-científica de resultados positivos para DNA bovino;
Os procedimentos necessários para confirmar ou refutar a hipótese de origem alimentar.
Este estudo examina a plausibilidade científica de uma rota de transferência de DNA, não constituindo, por si só, comprovação de sua ocorrência em um estabelecimento, processo ou lote específico. Também não constitui avaliação conclusiva da conformidade legal da utilização de FCO em rações, matéria que depende da espécie, categoria animal, origem e natureza do ingrediente, período de produção e regulamentação efetivamente aplicável.
Figura 1 · Rota hipotética do DNA bovino (esquema conceitual). Fonte: Gomes Neto (2026), DOI 10.5281/zenodo.23701597.
Nota terminológica. Utiliza-se farinha de vísceras de aves (FVA) para o produto investigado e farinha de carne e ossos (FCO) de origem bovina para o ingrediente considerado na hipótese. As denominações dos produtos seguem a Instrução Normativa SDA/MAPA nº 110/2020; a especificação “de origem bovina” e a sigla FCO são empregadas para fins de identificação neste estudo. A expressão processed animal protein (PAP; proteína animal processada) é utilizada como categoria técnica geral, observadas as definições de cada jurisdição. Nas referências internacionais, preservam-se os termos originais, como poultry by-product meal (PBM), meat and bone meal (MBM) e rendering, sem pressupor equivalência integral de composição, matéria-prima ou classificação regulatória.
2. Fundamentação da hipótese de origem alimentar
A farinha de carne e ossos bovina é um ingrediente obtido por processamento térmico de matérias-primas de origem bovina. Embora o processamento promova alterações estruturais nas proteínas e degradação do material genético, estudos demonstram que fragmentos de DNA podem permanecer detectáveis após tratamentos térmicos intensos, especialmente quando são empregados métodos de PCR direcionados a sequências curtas.
Frezza et al. (2003) e Fumière et al. (2006) demonstraram que a intensidade do tratamento térmico e o tamanho do fragmento de DNA pesquisado influenciam a capacidade de detecção molecular de material bovino processado.
Desse modo, caso uma ração contenha FCO, é cientificamente possível que essa ração contenha também fragmentos de DNA bovino detectáveis por PCR.
Após a ingestão, o material alimentar é submetido a processos físicos, químicos e enzimáticos no trato gastrointestinal da ave. Esses processos promovem digestão e degradação de componentes da ração, incluindo ácidos nucleicos, mas não permitem afirmar que todas as sequências de DNA de origem alimentar sejam necessariamente eliminadas antes do abate.
É essencial diferenciar dois fenômenos:
a) Incorporação biológica | b) Presença residual de material alimentar |
|---|---|
o consumo de FCO não transforma o DNA das células da ave em DNA bovino. O genoma dos tecidos da ave permanece característico de sua espécie. | partículas, moléculas e fragmentos de DNA provenientes da alimentação podem permanecer no conteúdo gastrointestinal e, caso esse conteúdo alcance a matéria-prima da graxaria, constituir uma fonte potencial de DNA de outra espécie. |
Portanto, a hipótese analisada não pressupõe a presença de tecido bovino na anatomia da ave. Pressupõe, exclusivamente, a possibilidade de transferência de resíduos alimentares ou de DNA de origem alimentar para o fluxo industrial utilizado na produção de FVA.
3. Consumo de ração, jejum pré-abate e conteúdo gastrointestinal
3.1 Consumo alimentar e conteúdo residual são grandezas distintas
O consumo diário de ração representa a quantidade ingerida durante determinado período. Essa quantidade não corresponde à massa de ração existente no trato gastrointestinal no momento do abate.
Ao longo do dia, ocorre movimentação contínua do alimento pelo trato digestório, acompanhada de trituração, digestão, absorção e eliminação.
Consequentemente, para avaliar a quantidade de material alimentar potencialmente transferível à graxaria, é necessário considerar a massa residual presente no trato gastrointestinal após o período de jejum, e não a ingestão total diária.
Também é necessário distinguir o peso úmido do conteúdo gastrointestinal de sua massa equivalente de ração seca, uma vez que o conteúdo digestivo inclui água, secreções, material parcialmente digerido e outros constituintes.
3.2 Efeito do jejum pré-abate
O jejum pré-abate é utilizado, entre outras finalidades, para reduzir o conteúdo gastrointestinal e a possibilidade de extravasamento de ingesta durante as operações de abate e evisceração.
Buhr et al. (1998), em estudo com frangos submetidos a períodos de retirada de alimento de 0, 6, 12, 18 e 24 horas, verificaram redução do peso das vísceras e de determinados diâmetros intestinais com o aumento do tempo de jejum.
O estudo também demonstrou que a resposta não é uniforme entre os diferentes parâmetros anatômicos e que períodos prolongados de jejum não representam necessariamente uma melhoria contínua das condições de processamento.
Northcutt, Savage e Vest (1997) avaliaram a relação entre o período de jejum e a condição das vísceras, contribuindo para a compreensão dos efeitos do manejo pré-abate sobre o trato gastrointestinal.
Esses resultados sustentam que o jejum é uma variável relevante para a quantidade e a condição do conteúdo digestivo disponível no momento da evisceração.
Entretanto, a redução do conteúdo gastrointestinal não permite presumir seu esvaziamento completo em todas as aves. A quantidade residual depende de fatores como tempo efetivo sem alimento, condições de transporte e espera, características da dieta, idade, peso e variabilidade individual.
3.3 Evisceração e transferência de conteúdo gastrointestinal
Mesmo que exista DNA bovino no conteúdo digestivo de uma ave, sua presença na FVA depende de uma etapa adicional: a efetiva transferência desse material ao fluxo de matéria-prima destinado à graxaria.
Essa transferência pode variar conforme o processo industrial, especialmente em função de:
Integridade do trato gastrointestinal durante a evisceração;
Separação ou não do conteúdo digestivo;
Destinação do papo, intestinos e demais órgãos;
Ocorrência de extravasamento de ingesta;
Procedimentos de lavagem e segregação;
Composição real da matéria-prima encaminhada ao processamento.
A existência de resíduos alimentares no trato gastrointestinal, portanto, não implica automaticamente que tais resíduos sejam incorporados à FVA.
Em uma operação com segregação eficaz, a transferência pode ser muito reduzida ou mesmo não ocorrer. Em outras condições operacionais, uma fração do material residual pode alcançar o processamento.
Essa variável é decisiva para a avaliação da hipótese e precisa ser determinada a partir de dados efetivos do estabelecimento.
4. Balanço de massa: da alimentação à matéria-prima da graxaria
4.1 Finalidade do balanço
O balanço de massa permite estimar a ordem de grandeza do material de origem alimentar que poderia, hipoteticamente, alcançar a produção de FVA.
O cálculo não mede a concentração de DNA bovino, não estima diretamente a quantidade de DNA amplificável e não demonstra a ocorrência real de transferência.
Sua função é tornar explícitas as relações quantitativas entre o número de aves, a quantidade residual de alimento, a participação de FCO na dieta e a fração efetivamente encaminhada à graxaria.
4.2 Premissas do cenário ilustrativo
Para demonstrar o procedimento, adota-se um lote hipotético com os seguintes parâmetros:
Parâmetro | Valor adotado |
|---|---|
Número de aves | 80.000 |
Peso vivo médio por ave | 2,5 kg |
Peso vivo total | 200.000 kg |
Consumo diário ilustrativo de ração | 150 g/ave |
Inclusão hipotética de FCO na ração | 3,0% |
Período de jejum considerado | 8 a 12 horas |
Transferência hipotética do resíduo gastrointestinal à graxaria | 10% |
Os valores relativos ao consumo de ração, inclusão de FCO, conteúdo residual e transferência à graxaria são premissas de simulação, não resultados medidos no estabelecimento e tampouco médias experimentais validadas para essa finalidade.
4.3 Consumo diário de ração e FCO
Para 80.000 aves, com consumo ilustrativo de 150 g de ração por ave ao dia:
80.000 aves × 0,150 kg/ave/dia = 12.000 kg de ração/dia.
Considerando inclusão hipotética de 3% de FCO:
12.000 kg × 0,03 = 360 kg de FCO consumidos diariamente pelo lote.
Por ave:
0,150 kg × 0,03 = 0,0045 kg, ou 4,5 g de FCO por ave ao dia.
Esses números caracterizam apenas a ingestão diária hipotética.
Não é correto considerar que os 360 kg de FCO ingeridos diariamente permaneçam no trato gastrointestinal no momento do abate ou sejam transferidos à graxaria.
A massa potencialmente transferível deve ser calculada a partir do conteúdo residual existente após o jejum.
4.4 Cenários de conteúdo gastrointestinal residual
Como não foram fornecidas medições do conteúdo gastrointestinal do lote, são adotados três cenários exploratórios, expressos em equivalente de ração seca residual:
Cenário | Equivalente de ração residual por ave | Total residual no lote |
|---|---|---|
Baixo | 5 g | 400 kg |
Intermediário | 10 g | 800 kg |
Elevado | 20 g | 1.600 kg |
Esses valores não devem ser interpretados como quantidades médias demonstradas para aves submetidas a 8–12 horas de jejum. São hipóteses matemáticas utilizadas para análise de sensibilidade.
Considerando 3% de FCO na ração originalmente ingerida, obtêm-se os seguintes valores de FCO-equivalente:
Cenário | Ração residual equivalente | FCO-equivalente residual |
|---|---|---|
Baixo | 400 kg | 12 kg |
Intermediário | 800 kg | 24 kg |
Elevado | 1.600 kg | 48 kg |
A expressão FCO-equivalente indica a fração atribuível à inclusão original de FCO na dieta, antes de considerar a digestão diferencial dos ingredientes.
Não significa que exista essa quantidade de FCO intacta no trato gastrointestinal.
O cálculo pressupõe, apenas para fins ilustrativos, que a participação proporcional da FCO no resíduo seja equivalente à sua participação na ração. Essa igualdade não foi demonstrada experimentalmente e pode não ocorrer, uma vez que ingredientes diferentes apresentam velocidades e características distintas de digestão e passagem gastrointestinal.
Bases de massa. O resíduo gastrointestinal está expresso em equivalente de ração seca, conforme os cenários adotados. Os valores de 12, 24 e 48 kg são massa nominal de FCO-equivalente, obtida pela aplicação da inclusão de 3% a esse resíduo, sem conversão de umidade do ingrediente. As vísceras (item 5.1) estão em massa úmida e a FVA (item 5.2) em massa de farinha. As relações percentuais do item 5.3 combinam, portanto, massas de naturezas distintas e servem apenas como ordem de grandeza.
4.5 Transferência potencial à graxaria
A etapa seguinte consiste em considerar qual fração do conteúdo gastrointestinal residual efetivamente alcançaria a matéria-prima destinada à produção de FVA.
Adotando-se, exclusivamente para simulação, uma transferência de 10%:
Cenário | FCO-equivalente residual | Transferência hipotética | FCO-equivalente destinado à graxaria |
|---|---|---|---|
Baixo | 12 kg | 10% | 1,2 kg |
Intermediário | 24 kg | 10% | 2,4 kg |
Elevado | 48 kg | 10% | 4,8 kg |
A taxa de 10% não constitui índice industrial padronizado nem valor publicado especificamente para transferência de FCO-equivalente à graxaria.
Na ausência de medições, a transferência real pode ser inferior, superior ou nula.
Portanto, o balanço de massa demonstra que, sob determinadas premissas, pequenas quantidades equivalentes de material originalmente proveniente da alimentação poderiam alcançar a matéria-prima industrial. Não demonstra que essas quantidades tenham efetivamente alcançado o produto final.
5. Balanço de massa: da matéria-prima à farinha de vísceras de aves
5.1 Estimativa da massa de vísceras
Crawley, Sloan e Hale (1980) avaliaram rendimentos de subprodutos de frangos abatidos em diferentes idades.
Para aves com sete semanas, os autores relataram rendimento de vísceras de 8,06% do peso vivo, conforme a Tabela 1 do estudo.
É importante observar que a definição experimental de vísceras incluiu papo, baço, glândulas sexuais, pulmões, intestinos e conteúdo digestivo.
Como a definição de Crawley, Sloan e Hale (1980) inclui intestinos e conteúdo digestivo, o conteúdo gastrointestinal residual é parte das 16.000 kg de vísceras úmidas, e não uma entrada adicional a elas. O FCO-equivalente transferido é uma fração dessa matéria-prima. Por isso, a base hipotética de 4.000 kg de FVA não se altera quando a taxa de transferência é modificada nos cenários de sensibilidade.
Esse percentual não representa necessariamente a composição ou o rendimento da matéria-prima utilizada em todas as plantas industriais de FVA.
Aplicando-se, de maneira ilustrativa, o valor arredondado de 8% ao peso vivo total do lote hipotético:
200.000 kg × 0,08 = 16.000 kg de vísceras úmidas.
A estimativa corresponde a 16 toneladas de material úmido, segundo a definição de vísceras adotada como referência.
5.2 Estimativa da produção de FVA
O rendimento industrial da transformação da matéria-prima úmida em farinha depende de sua composição, teor de água, teor de gordura, sistema de cocção, separação de gordura e demais operações.
Para o exemplo, adota-se um rendimento hipotético de 25%:
16.000 kg × 0,25 = 4.000 kg de FVA.
Esse rendimento é uma premissa de cálculo. Não foi extraído como rendimento industrial universal do estudo de Crawley et al. (1980).
A produção real deve ser estabelecida a partir dos registros de entrada de matéria-prima e saída de farinha do estabelecimento.
5.3 Relação entre FCO-equivalente e massa de FVA
Utilizando-se os valores hipotéticos de FCO-equivalente destinados à graxaria e uma produção de 4.000 kg de FVA:
Cenário | FCO-equivalente destinado à graxaria | Produção ilustrativa de FVA | Relação equivalente de massa |
|---|---|---|---|
Baixo | 1,2 kg | 4.000 kg | 0,03% |
Intermediário | 2,4 kg | 4.000 kg | 0,06% |
Elevado | 4,8 kg | 4.000 kg | 0,12% |
Os valores podem ser expressos, respectivamente, como 0,3 mg, 0,6 mg e 1,2 mg de FCO-equivalente por grama de FVA, apenas como relações aritméticas de massa.
Esses percentuais não representam concentração real de FCO intacta, concentração de DNA bovino ou teor analítico de material bovino na FVA.
Durante a digestão e o processamento industrial, ocorrem transformações e perdas de matéria. Além disso, o DNA constitui apenas uma pequena fração da massa original, cuja recuperação e capacidade de amplificação dependem de fatores específicos.
Por isso, não é cientificamente adequado comparar diretamente os percentuais de 0,03%, 0,06% e 0,12% com os limites de detecção de PCR publicados para misturas artificiais de FCO em ração.
5.4 Análise de sensibilidade da transferência
A taxa de 10% adotada no item 4.5 é uma premissa exploratória, não uma medição. Para mostrar que a conclusão não depende dessa escolha, a tabela recalcula a relação com 4.000 kg de FVA para transferências de 50% e 100%, mantidas as demais premissas.
Cenário de resíduo (FCO-equivalente) | Transferência 10% | Transferência 50% | Transferência 100% |
|---|---|---|---|
Baixo (12 kg) | 0,03% | 0,15% | 0,30% |
Intermediário (24 kg) | 0,06% | 0,30% | 0,60% |
Elevado (48 kg) | 0,12% | 0,60% | 1,20% |
Fonte: elaborado pelo autor a partir das premissas da seção 4 deste estudo (80.000 aves; inclusão de 3% de FCO; resíduo de 5, 10 e 20 g/ave) e do rendimento de vísceras de Crawley, Sloan e Hale (1980). Percentuais de FCO-equivalente nominal em relação à massa hipotética de FVA. Não são concentrações de DNA bovino amplificável nem teores analíticos medidos na farinha.
O cenário de 100% representa a transferência integral da massa estimada de FCO-equivalente residual para a matéria-prima da graxaria. Trata-se de um limite hipotético de sensibilidade, não de uma condição operacional demonstrada. O encaminhamento dos intestinos à graxaria, por si só, não comprova essa transferência integral.
Mesmo no cenário mais alto, a conclusão do item 5.5 se mantém: o balanço indica que a hipótese não pode ser descartada pela pequena participação da FCO na dieta, mas não permite prever o resultado da PCR.
Figura 2 · Exemplo ilustrativo — 80.000 aves (cenário hipotético). Fonte: Gomes Neto (2026), DOI 10.5281/zenodo.23701597.
5.5 Interpretação do balanço
O balanço de massa permite concluir que a hipótese de origem alimentar não pode ser descartada apenas pelo argumento de que a FCO representa pequena fração da dieta.
Entretanto, o mesmo balanço demonstra que a massa potencialmente disponível sofre sucessivas reduções antes de alcançar a FVA, especialmente em função do esvaziamento gastrointestinal e da transferência efetiva ao processamento.
A plausibilidade quantitativa depende, portanto, de parâmetros operacionais ainda não determinados.
O balanço não fornece evidência suficiente para afirmar que uma amostra específica de FVA deva apresentar PCR positivo ou negativo para DNA bovino.
6. Degradação do DNA ao longo da cadeia produtiva
6.1 Considerações gerais
O DNA é uma molécula suscetível a fragmentação e alterações químicas decorrentes de exposição ao calor, hidrólise, condições de pH e atividade de enzimas capazes de degradar ácidos nucleicos.
A degradação não deve ser tratada como um fenômeno necessariamente binário, em que o DNA permanece integralmente intacto ou desaparece por completo.
Em materiais intensamente processados, podem persistir fragmentos curtos, embora sequências maiores deixem de ser amplificáveis.
A capacidade de detecção por PCR depende da existência de fragmentos que contenham, de forma suficientemente preservada, a região reconhecida pelos iniciadores e pela sonda do método utilizado.
Figura 3 · Etapas de alteração e perda de material (esquema conceitual). Fonte: Gomes Neto (2026), DOI 10.5281/zenodo.23701597.
6.2 Primeira etapa: processamento térmico da FCO bovina
A primeira exposição relevante ocorre durante a produção da própria farinha de carne e ossos bovina.
Nesse processo, a matéria-prima bovina é submetida a condições térmicas capazes de reduzir a integridade do DNA.
Frezza et al. (2003) demonstraram que a intensidade do tratamento térmico influencia a recuperação e a amplificação de fragmentos de DNA mitocondrial bovino.
Fumière et al. (2006) avaliaram farinhas de carne e ossos submetidas a diferentes condições de processamento térmico e demonstraram que amostras tratadas com vapor sob pressão, inclusive a temperaturas de até 141 °C, ainda apresentaram resultados positivos para DNA bovino quando analisadas por PCR direcionada a um fragmento de 68 pares de bases.
Portanto, o processamento térmico inicial da FCO pode degradar intensamente o DNA, mas não assegura, por si só, a eliminação de todas as sequências bovinas potencialmente detectáveis.
6.3 Segunda etapa: fabricação da ração
Após a produção da FCO, o ingrediente pode ser incorporado à ração e submetido a operações adicionais, como mistura, condicionamento térmico e peletização, dependendo do processo de fabricação.
Essas etapas podem alterar adicionalmente a integridade do DNA.
Entretanto, o grau de degradação depende das condições efetivamente empregadas, incluindo temperatura, umidade, tempo de residência e características da matriz.
Não é possível atribuir uma taxa específica de perda de DNA sem dados experimentais relativos ao processo.
Também não se deve presumir que enzimas comerciais adicionadas à ração, como fitases, proteases ou xilanases, exerçam necessariamente atividade direta de degradação do DNA. Essa função depende da presença e da atividade de nucleases específicas.
6.4 Terceira etapa: digestão gastrointestinal
Após a ingestão da ração, os componentes alimentares são submetidos à ação mecânica da moela, às condições químicas do trato digestivo e à atividade de enzimas digestivas.
Esses fatores favorecem a degradação do material biológico e dos ácidos nucleicos.
Contudo, o grau de persistência de uma sequência específica de DNA bovino após a passagem pelo trato gastrointestinal das aves não pode ser inferido diretamente dos estudos que avaliaram apenas FCO processada ou FCO adicionada artificialmente à ração.
Em particular, os estudos de Frezza et al. (2003) e Fumière et al. (2006) não reproduziram integralmente a sequência de ingestão, digestão gastrointestinal e posterior produção de FVA.
Assim, é cientificamente justificável considerar a digestão como uma etapa adicional de degradação, mas não quantificar sua eficiência para o DNA bovino pesquisado sem experimentos específicos.
6.5 Quarta etapa: jejum e evisceração
O jejum pré-abate atua principalmente sobre a quantidade de conteúdo alimentar residual.
A evisceração e a segregação industrial determinam a fração desse conteúdo que pode alcançar a matéria-prima da graxaria.
Essas etapas precisam ser diferenciadas dos processos de degradação molecular: o jejum e a segregação podem reduzir a massa de material de origem alimentar disponível, independentemente da integridade do DNA eventualmente presente.
Dessa forma, mesmo que fragmentos amplificáveis persistam no trato gastrointestinal, sua presença na FVA dependerá da transferência física do material ao processamento.
6.6 Quinta etapa: processamento térmico da FVA
Caso fragmentos de DNA bovino provenientes do conteúdo gastrointestinal alcancem a matéria-prima da graxaria, eles serão submetidos a novo processamento térmico durante a produção da FVA.
Esse segundo processamento pode provocar degradação adicional.
Os estudos disponíveis sobre detecção de DNA em farinhas de carne e ossos demonstram que o tratamento térmico intenso não impede necessariamente a amplificação de fragmentos curtos.
Entretanto, esses resultados não podem ser automaticamente extrapolados para a rota completa em análise, que envolve:
FCO bovina processada → fabricação da ração → ingestão e digestão pela ave → jejum e evisceração → produção de FVA → extração de DNA e PCR.
Não foi identificada, entre as referências examinadas, validação experimental dessa sequência integral capaz de estabelecer a proporção de DNA bovino que permanece amplificável após todas as etapas.
Portanto, não há fundamento para atribuir um percentual acumulado de sobrevivência do DNA, nem para afirmar que o processamento da FVA necessariamente elimine ou preserve a sequência pesquisada.
7. Diferença entre massa de ingrediente e DNA amplificável
A massa de FCO originalmente incorporada à ração não corresponde à massa de DNA bovino disponível para análise.
A farinha contém proteínas, minerais, lipídios, água residual e outros constituintes, enquanto o DNA representa apenas parte do material biológico original.
Além disso, a proporção de DNA por unidade de massa varia conforme a composição da matéria-prima, especialmente a participação relativa de tecidos e ossos.
Ao longo da cadeia produtiva, a quantidade de DNA recuperável e a fração que permanece amplificável são influenciadas por múltiplas etapas.
De maneira conceitual, pode-se representar a quantidade final de DNA bovino amplificável pela seguinte relação:
DNA bovino amplificável no ensaio = DNA bovino inicial × fração transferida ao fluxo industrial × fatores de preservação molecular nas etapas de processamento e digestão × eficiência de extração e recuperação analítica. |
Essa expressão representa a lógica do processo, mas não constitui um modelo quantitativo validado.
Os fatores envolvidos não são conhecidos para o cenário em análise e não devem receber valores arbitrários.
Consequentemente, não é possível transformar diretamente uma estimativa de FCO-equivalente em concentração de DNA bovino na FVA.
Também não é possível determinar a probabilidade de PCR positivo a partir do balanço de massa isoladamente.
8. Sensibilidade dos métodos de PCR para DNA bovino
8.1 Fundamento da detecção molecular
A PCR é uma técnica que permite amplificar regiões específicas de DNA.
Quando os iniciadores e sondas são adequadamente desenvolvidos e validados, o método pode identificar sequências características de determinada espécie animal, mesmo em amostras que tenham sido submetidas a processamento térmico.
A capacidade de detecção depende de diversos fatores, incluindo:
Tamanho da sequência-alvo;
Número de cópias da sequência no material original;
Estado de conservação do DNA;
Eficiência do procedimento de extração;
Composição da matriz analisada;
Presença de substâncias inibidoras;
Quantidade de amostra utilizada;
Critérios de interpretação do ensaio.
Portanto, não existe um limite de detecção único e universal para toda PCR destinada à identificação de DNA bovino.
8.2 Importância do tamanho do fragmento pesquisado
Fumière et al. (2006) desenvolveram um método de PCR em tempo real direcionado a uma região de 68 pares de bases do DNA mitocondrial, situada na região tRNA-Lys/ATP8.
A escolha de um fragmento curto foi central para a detecção de DNA em farinhas submetidas a tratamentos térmicos severos.
No estudo, os autores compararam diferentes tamanhos de fragmentos e demonstraram redução da capacidade de amplificação à medida que o comprimento da região pesquisada aumentava.
Nas cinco amostras de farinha de carne e ossos submetidas aos tratamentos térmicos avaliados, fragmentos superiores a 174 pares de bases não foram detectados nas condições experimentais, enquanto o alvo de 68 pares de bases permaneceu detectável.
Esse resultado demonstra que a ausência de amplificação de um fragmento longo não significa necessariamente ausência completa de DNA da espécie pesquisada.
Da mesma forma, a detecção de um fragmento curto não significa que o DNA original esteja íntegro.
Natonek-Wiśniewska et al. (2013) demonstraram a aplicabilidade de amplicons mitocondriais curtos (66–90 pb) à identificação de espécies animais em farinhas e rações, inclusive em materiais submetidos a processamento térmico, o que reforça a importância do comprimento do alvo para a detecção de DNA degradado. Os limites obtidos pelos autores são específicos do método e das matrizes estudadas. Bottero et al. (2003) amplificaram fragmentos maiores, de 234 a 265 pb do gene 16S mitocondrial, em farinhas de carne e de sangue processadas a 134,4–141,9 °C, o que indica que o tamanho do fragmento recuperável depende também do alvo e do método empregados.
8.3 Natureza do alvo: mitocondrial ou nuclear
Além do tamanho do fragmento, a localização da sequência-alvo influencia a detecção. Sequências do DNA mitocondrial estão presentes em muitas cópias por célula, enquanto genes nucleares de baixa cópia estão presentes em poucas. Em material muito degradado, um alvo mitocondrial tende a oferecer mais moléculas-molde do que um alvo nuclear de baixa cópia.
O alvo de 68 pares de bases de Fumière et al. (2006) é mitocondrial (região tRNA-Lys/ATP8). Em contraste, Gao et al. (2003) desenvolveram um ensaio para material bovino baseado em fragmento genômico da lactoferrina, descrito pelos autores como gene de baixa cópia, com detecção acima de 0,02% de farinha bovina no desenho experimental do artigo, valor que não representa limite validado para farinhas industriais nem para a rota alimentar aqui investigada.
A detectabilidade não decorre apenas da natureza mitocondrial do alvo. Ela resulta da combinação entre abundância inicial, comprimento do amplicon, eficiência de extração, composição da matriz e condições do ensaio. Por isso, a interpretação de um resultado exige conhecer a sequência-alvo, sua localização, o tamanho do amplicon e o limite de detecção validado na matriz analisada (item 13.5).
8.4 Efeito do tratamento térmico sobre os valores de Ct
O valor de Ct, ou ciclo de limiar, corresponde ao número de ciclos de amplificação necessários para que o sinal fluorescente alcance um limite definido no ensaio de PCR em tempo real.
Em condições controladas, valores menores geralmente indicam maior quantidade inicial de sequência-alvo amplificável.
Fumière et al. (2006) demonstraram que a intensidade do tratamento térmico influencia fortemente o Ct.
Na Tabela 1 do artigo, amostras de farinha de carne e ossos com composição aproximadamente equivalente de material bovino e suíno apresentaram os seguintes resultados para o alvo bovino:
Figura 4 · Efeito da temperatura de processamento sobre o Ct (dados publicados). Fonte: Gomes Neto (2026), DOI 10.5281/zenodo.23701597.
Os resultados evidenciam que o aumento da severidade térmica pode reduzir a quantidade de DNA amplificável, mesmo quando a proporção de material bovino na amostra permanece aproximadamente semelhante.
Dessa forma, valores de Ct distintos não podem ser interpretados automaticamente como diferenças proporcionais na massa de FCO presente nas amostras.
8.5 Limites de detecção publicados
A literatura apresenta resultados de detecção de pequenas proporções de farinha de carne e ossos em matrizes de alimentação animal.
Fumière et al. (2006) relataram capacidade de detecção em torno de 0,1% de farinha de carne e ossos adicionada à ração, nas condições de seu método e das matrizes estudadas.
Entretanto, parte das amostras experimentais continha farinha composta aproximadamente por 50% de material bovino e 50% de material suíno. Nesses casos, uma adição de 0,1% de farinha mista corresponde a aproximadamente 0,05% de material bovino em massa, condição na qual foram observadas dificuldades de detecção em determinados ensaios.
O estudo registrou, ainda, resultados positivos inesperados em algumas amostras, demonstrando a importância de considerar a composição prévia da matriz, a possibilidade de fontes adicionais de DNA e a interpretação de resultados próximos ao limite do método.
Outros estudos também demonstraram a possibilidade de detecção de DNA de espécies animais em ingredientes processados e rações, com sensibilidades dependentes do protocolo empregado.
Esses resultados comprovam a elevada capacidade analítica de determinados métodos de PCR, mas não estabelecem que as mesmas proporções sejam detectáveis após digestão gastrointestinal e novo processamento térmico na produção de FVA.
8.6 Limite de detecção analítico e matriz da FVA
Os limites publicados para FCO adicionada diretamente a rações ou a outras farinhas não devem ser aplicados automaticamente à FVA produzida a partir de aves alimentadas com FCO.
As situações são experimentalmente diferentes.
Adição direta | Origem alimentar |
|---|---|
Na adição direta, a farinha bovina é incorporada à matriz em concentração conhecida e analisada conforme um protocolo definido. | Na hipótese de origem alimentar, o material bovino passa por sucessivas etapas de transformação, digestão, redução de massa, possível transferência e novo processamento térmico. |
Assim, o limite de detecção relevante seria aquele validado especificamente para DNA bovino residual na matriz de FVA e, idealmente, para a rota produtiva investigada.
Sem essa validação, não é possível afirmar que uma relação ilustrativa de 0,03%, 0,06% ou 0,12% de FCO-equivalente resulte em sinal detectável.
Essa ressalva vale para todos os cenários do item 5.4, inclusive os de transferência elevada. Uma relação de 0,30% a 1,20% de FCO-equivalente nominal não pode ser comparada diretamente com os 0,1% de farinha publicados por Fumière et al. (2006): naquele caso, a farinha foi adicionada diretamente à ração em concentração conhecida; aqui, trata-se de massa estimada ao fim de uma cadeia de digestão, transferência e novo processamento térmico.
9. Limitações da quantificação por PCR
A PCR qualitativa pode demonstrar a presença de uma sequência-alvo de DNA bovino na amostra analisada.
Entretanto, a conversão desse resultado em porcentagem de farinha bovina exige condições adicionais de validação.
Fumière et al. (2006) ressaltaram expressamente as dificuldades de quantificar a massa de farinha de carne e ossos a partir do Ct, considerando que o sinal é influenciado por fatores como:
Temperatura e severidade do tratamento térmico;
Processo de fabricação da farinha;
Composição da matéria-prima;
Degradação do DNA;
Presença de inibidores da PCR.
Os autores observaram que, quando essas variáveis são desconhecidas, não existe relação suficientemente estável entre o número de cópias da sequência-alvo e a massa de farinha originalmente presente.
Myers et al. (2010) avaliaram oito métodos comerciais de extração de DNA aplicados a quatro lotes de farinha bovina de carne e ossos. Em ração experimental fortificada com 0,1% de farinha bovina, a detecção por PCR variou conforme o método de extração (Tabela 4 do artigo, p. 1093):
Kit de extração | Amostras positivas | Ct médio |
|---|---|---|
Forensic | 5/5 | 29,98 |
Invitrogen | 6/6 | 29,82 |
Wizard Plus | 6/6 | 38,08 |
Qiagen Blood | 5/6 | 42,31 |
Roche | 5/6 | 44,24 |
Qiagen Easy | 5/5 | 46,17 |
Nucleon | 0/6 | não aplicável |
Qiagen Stool | 0/5 | não aplicável |
Fonte: Myers et al. (2010), Tabela 4, p. 1093. Ração fortificada com 0,1% de farinha bovina de carne e ossos; Ct médio ± desvio no original.
Dois kits não produziram resultados positivos nas amostras avaliadas, enquanto os demais apresentaram valores médios de Ct entre aproximadamente 30 e 46. Os autores também verificaram que a quantidade total de DNA extraída da farinha pura não correspondeu à quantidade de DNA amplificável na ração fortificada, e destacaram a heterogeneidade da farinha e da ração (p. 1094–1095).
Esses resultados demonstram que a ausência de amplificação depende também do desempenho do método na matriz investigada. A ausência de PCR positivo não demonstra, isoladamente, ausência absoluta de DNA da espécie pesquisada. Isso não invalida resultados negativos obtidos por método adequadamente validado na matriz, mas reforça a necessidade dessa validação.
Colgan et al. (2001), ao analisarem sete amostras comerciais de farinha de carne e ossos, observaram concordância de 72,5% e 60% com a composição de espécies esperada, conforme o procedimento de extração utilizado, o que evidencia limitações metodológicas na identificação de DNA em matrizes industriais processadas. A composição informada pelas unidades produtoras não constituiu padrão de referência independente.
Consequentemente, um resultado positivo para DNA bovino não permite, isoladamente, calcular a quantidade de FCO originalmente ingerida pelas aves ou a quantidade de material bovino eventualmente presente na FVA.
Mesmo quando se dispõe do valor de Ct, é necessário conhecer o método utilizado, suas condições de validação, os controles, a matriz e a curva de calibração aplicável.
10. Interpretação dos cenários de balanço de massa em relação à PCR
Os três cenários ilustrativos apresentados neste estudo, com transferência de 10%, resultaram em relações de FCO-equivalente de 0,03%, 0,06% e 0,12% em relação à massa hipotética de FVA.
Na análise de sensibilidade do item 5.4, com transferências de 50% e 100%, essas relações chegam a 0,15%–1,20%. A interpretação a seguir vale para toda essa faixa.
Esses resultados permitem discutir a ordem de grandeza de uma possível contribuição alimentar ao fluxo industrial. Entretanto, nenhuma dessas relações representa diretamente a concentração de DNA bovino amplificável no produto final.
Dessa forma:
Cenário baixo | Cenário intermediário | Cenário elevado |
|---|---|---|
0,03% de FCO-equivalente | 0,06% de FCO-equivalente | 0,12% de FCO-equivalente |
não é possível afirmar que o resultado de PCR seria negativo. Também não é possível assegurar sua detecção. | a proximidade numérica com determinados limites publicados para farinha adicionada diretamente à ração não constitui evidência de detectabilidade na FVA. | embora represente maior aporte hipotético de material de origem alimentar, permanece desconhecida a quantidade de DNA bovino efetivamente amplificável após todas as etapas. |
Em qualquer cenário, o resultado final depende da combinação entre transferência física, preservação molecular, extração de DNA e sensibilidade do método analítico.
Portanto, a literatura disponível não autoriza estabelecer um cenário como necessariamente positivo ou negativo.
11. Significado técnico de um resultado positivo para DNA bovino
Um resultado positivo de PCR, quando obtido por método adequadamente validado e acompanhado de controles satisfatórios, indica que a sequência de DNA bovino pesquisada foi detectada na amostra analisada.
Essa constatação possui significado analítico relevante, mas sua interpretação quanto à origem do DNA exige investigação complementar.
Há relato relacionado: Nesic et al. (2019) detectaram DNA de ruminante em 18 de 29 farinhas de carne e ossos de aves na Sérvia, sem investigar sua origem. A matriz é próxima da FVA, mas difere na composição: pela IN SDA/MAPA nº 110/2020, a farinha de vísceras de aves admite apenas vísceras, cabeças e pés, e a de carne e ossos de aves, os demais resíduos do abate e processamento (BRASIL, 2020). O resultado não estabelece a causa nem a frequência na FVA brasileira.
A detecção molecular, isoladamente, não permite determinar:
Se o DNA provém de FCO utilizada na alimentação das aves;
Se houve incorporação direta de matéria-prima bovina à FVA;
Se ocorreu contaminação cruzada em equipamentos, instalações ou transporte;
Se o DNA foi introduzido durante coleta, preparação ou análise da amostra;
Qual massa de material bovino corresponde ao sinal obtido;
Se houve uma conduta intencional;
Se existe infração a requisito regulatório específico.
Figura 5 · Interpretação de um PCR positivo (esquema conceitual). Fonte: Gomes Neto (2026), DOI 10.5281/zenodo.23701597.
A hipótese de origem alimentar é uma das explicações que podem ser investigadas, desde que haja evidências de utilização de FCO na dieta e possibilidade operacional de transferência de conteúdo gastrointestinal à graxaria.
A interpretação adequada deve considerar a rastreabilidade da alimentação, a composição das matérias-primas, o fluxograma industrial, as condições de processamento e os resultados analíticos.
12. Distinção entre sensibilidade analítica e critério regulatório
A capacidade de um método detectar pequenas quantidades de DNA não corresponde, automaticamente, à existência de uma tolerância legal para determinado ingrediente ou material.
Limite de detecção analítico | Critério regulatório |
|---|---|
O limite de detecção analítico descreve o desempenho de um ensaio sob condições definidas. | Já um critério regulatório decorre de normas específicas, que podem estabelecer proibições, permissões, condições de uso, requisitos de rastreabilidade ou métodos oficiais de fiscalização. |
Assim, um limite de detecção de 0,1% observado em determinada pesquisa não deve ser apresentado como limite legal de aceitação ou tolerância para DNA bovino em FVA.
Da mesma forma, um resultado positivo não deve ser automaticamente convertido em conclusão de irregularidade sem exame do enquadramento normativo aplicável e da natureza da evidência analítica.
A avaliação regulatória deve ser realizada separadamente, com base na legislação vigente no período e na jurisdição pertinentes.
13. Evidências necessárias para investigar a hipótese
Para avaliar a hipótese de que o DNA bovino detectado na FVA tenha origem na alimentação das aves, recomenda-se reunir informações referentes às etapas de alimentação, abate, evisceração, processamento industrial e análise laboratorial.
13.1 Alimentação
Devem ser obtidos:
Formulações efetivamente utilizadas nos lotes de aves;
Identificação e rastreabilidade dos ingredientes de origem animal;
Percentual real de inclusão de FCO, quando aplicável;
Histórico de utilização de FCO nas diferentes fases de alimentação;
Resultados de análise de DNA bovino nas rações e na própria FCO;
Condições de fabricação da ração, incluindo tratamentos térmicos.
13.2 Manejo pré-abate
Devem ser documentados:
Horário da última oferta de ração;
Tempo efetivo de jejum;
Intervalos de apanha, transporte e espera;
Condições operacionais que possam alterar o esvaziamento gastrointestinal;
Quantidade de conteúdo gastrointestinal residual, quando disponível.
13.3 Abate e evisceração
É necessário caracterizar:
O sistema de evisceração;
A destinação dos diferentes órgãos e conteúdos digestivos;
Os procedimentos de separação, lavagem e descarte;
A ocorrência de rompimentos e extravasamentos;
A composição efetiva do material enviado à graxaria.
13.4 Produção de FVA
Devem ser obtidos:
Massa e composição da matéria-prima recebida;
Massa de FVA produzida;
Rendimento real de processamento;
Temperatura, tempo e demais condições de cocção;
Procedimentos de segregação de linhas e equipamentos;
Registros de higienização e prevenção de contaminação cruzada;
Rastreabilidade de transporte, armazenamento e expedição.
13.5 Caracterização do método laboratorial
O laboratório deve informar, sempre que aplicável:
Método de extração de DNA;
Quantidade de amostra analisada;
Sequência-alvo e comprimento do amplicon;
Natureza do alvo, mitocondrial ou nuclear;
Especificidade analítica;
Limite de detecção validado;
Critérios de interpretação de positividade;
Valores de Ct/Cq, quando disponíveis;
Resultados dos controles positivos e negativos;
Avaliação de inibição;
Repetibilidade dos resultados;
Procedimentos de amostragem e contraprova.
Esses dados são indispensáveis para distinguir um sinal analítico robusto de uma detecção marginal, avaliar fontes alternativas de DNA e interpretar a relevância do resultado.
A microdissecção associada à PCR permite identificar a espécie de partículas individuais de osso ou músculo (AXMANN et al., 2015). No caso da FVA, porém, partículas de FCO ingeridas pelas aves podem estar presentes no conteúdo gastrointestinal encaminhado à graxaria, de modo que a identificação de partículas bovinas não distingue, isoladamente, a rota alimentar da incorporação direta ou da contaminação cruzada; da mesma forma, resultados negativos nas partículas não excluem DNA bovino em outras frações da amostra.
14. Proposta de verificação experimental
A investigação mais direta da hipótese seria um estudo controlado, com grupos de aves alimentadas com dietas equivalentes, diferenciadas pela presença ou ausência de FCO bovina.
O desenho experimental deveria contemplar condições de alimentação e jejum representativas do processo industrial investigado.
Recomenda-se analisar, de maneira sequencial:
A FCO utilizada na formulação;
A ração fornecida às aves;
O conteúdo gastrointestinal após o período de jejum;
As vísceras após os procedimentos de evisceração e segregação;
A matéria-prima efetivamente encaminhada à graxaria;
A FVA após o processamento térmico.
A inclusão de controles negativos, repetições e amostras coletadas em diferentes etapas permitiria identificar em qual ponto o DNA bovino permanece detectável ou deixa de ser detectado.
Seria particularmente útil comparar métodos de PCR com diferentes tamanhos de amplicon, pois a amplificação de fragmentos curtos e a ausência de amplificação de fragmentos longos podem fornecer informações sobre o estado de fragmentação do DNA.
Ainda assim, a relação entre fragmentação molecular e origem do DNA exige interpretação cautelosa.
Um estudo desse tipo permitiria verificar experimentalmente se a rota alimentar é capaz de gerar resultados positivos na FVA sob condições industriais definidas.
14.1 Correspondência entre as etapas propostas e as evidências publicadas
Parte das etapas acima já foi investigada isoladamente, em geral com DNA vegetal ou com farinha adicionada diretamente à ração. A tabela indica o que pode ser aproveitado da literatura e o que permanece como lacuna. Nenhum desses estudos demonstra a rota completa.
Etapa | Evidência publicada | Situação |
|---|---|---|
1. FCO utilizada | Fumière et al. (2006); Myers et al. (2010): DNA bovino detectável em farinha processada, com resultado dependente do método de extração. | Demonstrada em FCO processada |
2. Ração | Axmann et al. (2015): ingredientes de origem animal autorizados, como leite e gordura, geram sinal de PCR para ruminante em ração. | Demonstrado que a ração pode conter DNA de outra espécie |
3. Conteúdo gastrointestinal | Rossi et al. (2005); Świątkiewicz et al. (2010); Sieradzki et al. (2013): DNA alimentar detectável no papo e na moela de frangos. | Demonstrada com DNA vegetal; não com FCO bovina |
4. Vísceras | Crawley et al. (1980); Northcutt et al. (1997); Buhr et al. (1998); May e Deaton (1989); Northcutt, Buhr e Dickens (2002); Smith e Berrang (2006): massa de vísceras e conteúdo residual após o jejum. | Conteúdo residual quantificado; DNA e destinação à graxaria não avaliados |
5. Matéria-prima da graxaria | Hertrampf e Piedad-Pascual (2000): remoção do quimo apenas recomendada; fibra bruta atribuída ao quimo. FAO (2025): no enquadramento europeu apresentado, conteúdo digestivo é material de categoria 2, separado da PAP. | Possibilidade discutida; incorporação à FVA brasileira não demonstrada |
6. FVA | Nesic et al. (2019): DNA de ruminante em 18 de 29 farinhas de carne e ossos de aves analisadas na Sérvia, sem investigação da origem. | Ocorrência relatada; origem não investigada |
Fonte: elaborado pelo autor a partir das referências citadas na tabela.
Para a etapa 4, Smith e Berrang (2006), ao examinarem 30 carcaças de abatedouro comercial imediatamente antes da evisceração, recuperaram em média 8,4 g de conteúdo da moela por ave. Northcutt, Buhr e Dickens (2002) verificaram que, após 12 horas de jejum, o conteúdo do trato gastrointestinal, do proventrículo à cloaca, correspondia a 0,93 ± 0,62% do peso vivo no grupo sem estimulação elétrica, contra 2,40 ± 0,50% nas aves alimentadas. May e Deaton (1989) demonstraram que o alojamento em caixas e o regime alimentar anterior ao jejum retardam o esvaziamento do papo e do conjunto proventrículo e moela. Esses estudos não avaliaram DNA bovino nem a destinação desse conteúdo à graxaria.
Como etapa preliminar de investigação, pode-se realizar um estudo observacional em condições industriais, com coleta sequencial da ração, do conteúdo gastrointestinal, da matéria-prima efetivamente encaminhada à graxaria e da FVA correspondente. A comparação com lotes sem FCO na dieta poderá contribuir para a formulação de hipóteses, mas não substituirá controles experimentais e operacionais (histórico e higienização da linha, lotes anteriores, matérias-primas de outras espécies) necessários para atribuir causalmente a origem do DNA detectado. Antes da coleta, é necessário confirmar se papo, moela e seus conteúdos integram o fluxo destinado à FVA.
15. Síntese crítica das evidências científicas
A persistência de DNA de origem alimentar no trato digestivo de aves tem sido estudada principalmente com DNA vegetal, em experimentos sobre milho e soja geneticamente modificados. Esses estudos não avaliaram FCO bovina, mas informam sobre o destino de DNA ingerido em contextos experimentais distintos:
Klotz, Mayer e Einspanier (2002) detectaram com frequência um fragmento curto (199 pb) de DNA de cloroplasto em amostras comerciais de frango, incluindo estômago, e fragmentos de DNA vegetal no conteúdo do trato digestivo de suínos até 12 horas após a última refeição. Nas aves comerciais, os autores não controlaram alimentação, abate e coleta.
Sieradzki et al. (2013), em frangos, poedeiras, suínos e bezerros, detectaram fragmentos curtos de genes vegetais de referência (226 pb e 118 pb) e de sequências transgênicas em todas as amostras de conteúdo da moela das aves e do estômago de todas as espécies, e também no duodeno dos suínos (p. 437 e Tabela 1). No mesmo estudo, não houve detecção no conteúdo de jejuno, íleo, ceco, cloaca e cólon, nas excretas, em sangue, órgãos, músculos e ovos (p. 437).
Świątkiewicz et al. (2010), do mesmo grupo, com frangos Ross 308 alimentados por 42 dias, detectaram fragmentos transgênicos de cópia única (172 pb e 170 pb) em todas as amostras de conteúdo do papo e da moela, e em nenhuma amostra de conteúdo de duodeno, jejuno, íleo e ceco, de excretas ou de tecidos. Os fragmentos de genes vegetais endógenos (lectina, 118 pb; invertase, 226 pb) apareceram somente no conteúdo do papo (p. 240). A detecção, portanto, variou conforme o alvo.
Rossi et al. (2005), com 432 frangos alimentados por 42 dias, observaram degradação progressiva do DNA alimentar ao longo do trato digestivo. Fragmentos curtos de um gene de alta cópia (Zein) foram detectados com frequência alta, decrescente nas porções distais, e um fragmento longo, de 1.800 pb, foi recuperado apenas no conteúdo do papo e da moela (p. 1022 e 1028).
Os quatro estudos vêm de contextos experimentais diferentes e são coerentes entre si. Em conjunto, indicam que fragmentos de DNA alimentar podem permanecer detectáveis nas porções anteriores do trato digestivo das aves, como papo e moela, e tendem a não ser detectados nas porções posteriores e nos tecidos, nas condições experimentais avaliadas. Os estudos não demonstram que papo e moela sejam os únicos compartimentos onde DNA alimentar possa persistir. Como papo e moela podem integrar a matéria-prima de FVA, a observação é pertinente à hipótese, mas não substitui a validação da rota FCO bovina → ave → vísceras → FVA.
Nº | Fonte | Evidência relevante | Limite de aplicação ao presente caso |
|---|---|---|---|
1 | Frezza et al. (2003) | O tratamento térmico afeta a integridade e a amplificação do DNA bovino em farinha de carne e ossos. | Não avaliou a rota completa de digestão pela ave e produção posterior de FVA. |
2 | Fumière et al. (2006) | DNA bovino pode permanecer detectável em farinha intensamente processada, especialmente com alvo curto de 68 pb. | Os limites de detecção foram estudados em matrizes e condições distintas da FVA proveniente de aves alimentadas com FCO. |
3 | Crawley et al. (1980) | Fornece dados experimentais de rendimento de vísceras de frangos, incluindo 8,06% do peso vivo às sete semanas. | O rendimento depende da idade e da definição de vísceras; não estabelece o rendimento industrial de FVA. |
4 | Northcutt, Savage e Vest (1997) | Investiga a relação entre jejum pré-abate e condição das vísceras. | Não quantifica a transferência de DNA bovino de origem alimentar à graxaria. |
5 | Buhr et al. (1998) | Demonstra alterações no peso das vísceras e em parâmetros intestinais em função do tempo sem alimento. | Não mede FCO residual nem DNA bovino. |
6 | Myers et al. (2010) | Evidencia a influência do método de extração e da espécie de origem sobre a detecção de farinhas processadas por PCR. | Não estabelece a eficiência de recuperação de DNA bovino na rota industrial aqui investigada. |
7 | Klotz, Mayer e Einspanier (2002) | Fragmento curto (199 pb) de DNA de cloroplasto no suco gástrico e intestinal de suínos até 12 h após a refeição; sinais em amostras comerciais de frango, incluindo estômago | Parte das aves é estudo de campo com amostras de supermercado, sem controle de dieta e abate; os autores não excluem contaminação; DNA vegetal |
8 | Świątkiewicz et al. (2010) | Fragmentos transgênicos (172 pb e 170 pb) em todas as amostras de papo e moela; endógenos (118 pb e 226 pb) só no papo; ausentes no intestino, nas excretas e nos tecidos | DNA vegetal; não avalia FCO bovina nem produção de FVA |
9 | Sieradzki et al. (2013) | DNA alimentar (226 pb e 118 pb) em todas as amostras de moela das aves e de estômago das outras espécies, e no duodeno de suínos; ausente no intestino posterior, nas excretas, nos tecidos e nos ovos | DNA vegetal; negativos em tecidos não autorizam afirmar desaparecimento completo do DNA alimentar |
10 | Rossi et al. (2005) | Degradação progressiva do DNA alimentar ao longo do trato digestivo de frangos; fragmento de 1.800 pb recuperado só no papo e na moela | DNA vegetal; jejum pré-abate não descrito nas condições industriais |
11 | Natonek-Wiśniewska et al. (2013) | Amplicons mitocondriais de 66–90 pb identificam espécies em farinhas e rações processadas | Limites específicos do método e das matrizes |
12 | Colgan et al. (2001) | Concordância de 72,5% e 60% com a composição esperada em 7 farinhas comerciais | Composição declarada não é padrão de referência independente |
13 | Bottero et al. (2003) | Primers do gene 16S mitocondrial (234–265 pb) detectaram DNA de vertebrados nas 5 farinhas de carne e de sangue processadas a 134,4–141,9 °C; autores apontam dificuldade de distinguir contaminação cruzada acidental de adição intencional | Limite de 0,0625% obtido com farinha de peixe diluída em matriz vegetal; primers de vertebrados; não validado para DNA bovino em FVA nem avaliou digestão |
14 | Smith e Berrang (2006) | Média de 8,4 g de conteúdo da moela por ave em 30 carcaças de abatedouro comercial, antes da evisceração | Jejum das aves não informado; conteúdo do papo (2,4 g) inclui 2 mL de solução adicionada na coleta; DNA não avaliado |
15 | Northcutt, Buhr e Dickens (2002) | Conteúdo gastrointestinal de 0,93 ± 0,62% do peso vivo após 12 h de jejum (sem estimulação elétrica), contra 2,40 ± 0,50% em aves alimentadas | Medição do proventrículo à cloaca, sem o papo; planta piloto; DNA não avaliado |
16 | May e Deaton (1989) | Alojamento em caixas e alimentação intermitente retardam o esvaziamento do papo e do proventrículo e moela | Avaliação até 8 h de jejum, em condições experimentais; DNA não avaliado |
17 | Deaville e Maddison (2005) | DNA alimentar detectado até o intestino grosso; sequências transgênicas no conteúdo da moela 96 h após a troca por ingredientes convencionais; detecção dependente do número de cópias do alvo | DNA vegetal; aves seguiram recebendo ração (não é jejum); farinha de peixe da dieta não avaliada |
18 | Macelline et al. (2020) | Digestibilidade aparente da proteína de sete farinhas de carne e ossos varia entre farinhas e segmentos intestinais | Mede proteína, não DNA; inclusão de FCO muito superior à do cenário |
19 | Hertrampf e Piedad-Pascual (2000) | Farinha de subprodutos de aves (PBM) inclui vísceras; remoção do quimo apenas recomendada; fibra bruta atribuída ao quimo e à queratina dos pés | Obra técnica, sem medição; produto internacional não equivalente integralmente à FVA; DNA não avaliado |
20 | FAO (2025) | No enquadramento europeu, conteúdo do trato digestivo é material de categoria 2; PAP associa-se a materiais de categoria 3 (Tabela 4) | Classificação europeia; não determina a prática operacional brasileira |
Fonte das linhas 7 a 10: elaborado pelo autor a partir de Klotz, Mayer e Einspanier (2002), p. 271–275, Świątkiewicz et al. (2010), p. 237–242, Sieradzki et al. (2013), p. 435–441, e Rossi et al. (2005), p. 1022–1030; linhas 11 a 13, a partir de Natonek-Wiśniewska et al. (2013), Colgan et al. (2001) e Bottero et al. (2003), p. 2307–2311.
Fonte das linhas 14 a 20: elaborado pelo autor a partir de Smith e Berrang (2006), p. 144–146, Northcutt, Buhr e Dickens (2002), p. 1–4, May e Deaton (1989), p. 627–630, Deaville e Maddison (2005), p. 10268–10275, Macelline et al. (2020), p. 521–528, Hertrampf e Piedad-Pascual (2000), p. 330–332, e FAO (2025), p. 29.
Deaville e Maddison (2005) detectaram sequências transgênicas no conteúdo da moela de parte das aves 96 horas após a substituição dos ingredientes geneticamente modificados por convencionais, período em que as aves continuaram recebendo ração; a detecção variou conforme o número de cópias do alvo, o método de extração e a presença de inibidores. Macelline et al. (2020) mostraram que a digestibilidade da proteína de farinhas de carne e ossos em frangos varia conforme a farinha e o segmento intestinal, mas digestibilidade proteica não equivale à degradação do DNA.
Os estudos de alimentação com DNA vegetal demonstram que fragmentos de DNA provenientes da dieta podem permanecer amplificáveis no trato gastrointestinal de frangos. Entretanto, a extrapolação desses resultados para DNA bovino oriundo de farinha de carne e ossos permanece uma hipótese, pois não foi identificada, nas referências examinadas, comparação experimental direta entre as duas matrizes sob condições equivalentes de processamento, alimentação, digestão e análise molecular.
Consideradas em conjunto, as referências demonstram que DNA bovino pode permanecer amplificável em farinhas de carne e ossos submetidas a processamento térmico severo; que fragmentos de DNA provenientes da alimentação podem ser detectados no conteúdo gastrointestinal de aves; que resíduos alimentares permanecem no trato digestório no momento do abate; e que a farinha de subprodutos de aves pode conter componentes associados ao conteúdo digestivo, embora sua remoção seja recomendada. Essas evidências oferecem suporte técnico indireto à hipótese de que resíduos de ração contendo FCO bovina possam constituir uma fonte de DNA bovino detectável em FVA; o suporte é indireto porque os estudos sobre digestão avaliaram principalmente DNA vegetal. A inferência depende, contudo, da efetiva incorporação desses resíduos à matéria-prima industrial e das características do ensaio molecular, e não permite atribuir exclusivamente à alimentação a origem de um resultado positivo.
A transferência de DNA de origem alimentar para a FVA exige distinguir a persistência de DNA no trato gastrointestinal, a eventual presença de conteúdo digestivo na matéria-prima e sua efetiva incorporação ao produto final. Hertrampf e Piedad-Pascual (2000) descrevem como preferencial a remoção do quimo na preparação da matéria-prima de poultry by-product meal; a FAO (2025, Tabela 4), ao apresentar o enquadramento europeu, distingue o conteúdo do trato digestivo, material de categoria 2, das PAP associadas a materiais de categoria 3. Esse contraste mostra a necessidade de considerar as definições regulatórias e as práticas operacionais de cada contexto, mas não comprova que conteúdo gastrointestinal seja incorporado à FVA produzida no Brasil.
Figura 6 · Matriz de evidências (esquema conceitual). Fonte: Gomes Neto (2026), DOI 10.5281/zenodo.23701597.
O conjunto de evidências sustenta três proposições:
Primeira | Segunda | Terceira |
|---|---|---|
o DNA bovino pode permanecer detectável em farinha de carne e ossos submetida a processamento térmico intenso. | o jejum pré-abate e a evisceração são determinantes para a quantidade de conteúdo gastrointestinal potencialmente disponível para transferência à graxaria. | os resultados de PCR dependem de características do DNA, do processamento, da matriz e do método analítico, não sendo possível converter diretamente a massa estimada de FCO-equivalente em probabilidade de detecção. |
A principal lacuna permanece sendo a validação experimental da rota integral de transferência do DNA bovino desde a alimentação das aves até a FVA acabada, que não foi identificada nas referências examinadas.
16. Conclusão técnico-científica
A literatura científica demonstra que o processamento térmico de farinha de carne e ossos bovina pode degradar o DNA sem necessariamente eliminar todas as sequências passíveis de amplificação por PCR, especialmente quando são utilizados alvos mitocondriais curtos. Portanto, é biologicamente plausível que fragmentos de DNA bovino provenientes da alimentação possam permanecer no conteúdo gastrointestinal de aves que consumiram rações contendo FCO, embora essa persistência ainda não tenha sido demonstrada experimentalmente na rota investigada.
Para que esses fragmentos sejam detectados na farinha de vísceras de aves, entretanto, é necessário que o material de origem alimentar alcance efetivamente a matéria-prima destinada à graxaria e que parte da sequência-alvo permaneça amplificável após as etapas subsequentes de processamento. O balanço de massa ilustrativo demonstra a possibilidade matemática de transferência de pequenas quantidades equivalentes de material alimentar, mas não quantifica a presença real de DNA bovino no produto acabado.
Os estudos disponíveis não permitem estabelecer a taxa de sobrevivência do DNA bovino ao longo de toda essa cadeia, nem prever a positividade da PCR em FVA produzida sob condições industriais específicas.
Consequentemente, um resultado positivo de PCR comprova a detecção da sequência-alvo bovina na amostra, mas, isoladamente, não identifica sua origem, não quantifica a massa de FCO e não demonstra incorporação deliberada de matéria-prima bovina.
A hipótese de origem alimentar deve, portanto, ser considerada uma explicação cientificamente plausível e passível de investigação, mas não uma causa comprovada. Sua confirmação exige rastreabilidade da alimentação, caracterização do processamento industrial e evidências analíticas obtidas em etapas sucessivas da cadeia produtiva.
Metodologia da revisão e limitações
O estudo foi desenvolvido por revisão técnico-científica de literatura selecionada, análise comparativa de resultados publicados e cenários hipotéticos de balanço de massa. As referências citadas foram examinadas em seus textos originais, com atenção aos métodos, às matrizes, aos resultados e aos limites de extrapolação. A seleção teve caráter direcionado e exploratório, não constituindo revisão sistemática ou metanálise.
Os parâmetros do balanço de massa, inclusive a análise de sensibilidade do item 5.4, são premissas ilustrativas. Não foram realizados ensaios experimentais próprios, análises laboratoriais de FVA ou avaliações operacionais de estabelecimentos específicos.
A principal limitação é a ausência de demonstração experimental direta da rota completa de transferência de DNA bovino da alimentação das aves até a FVA acabada. As conclusões expressam plausibilidade técnico-científica e necessidades de investigação complementar, não comprovação causal da origem de resultados positivos de PCR.
Receba o briefing e o clipping do mercado todos os dias no WhatsApp: entre no grupo da AniVertis.
Referências
Legislação e normas brasileiras
BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Secretaria de Defesa Agropecuária. Instrução Normativa nº 110, de 24 de novembro de 2020. Publica a lista de matérias-primas aprovadas como ingredientes, aditivos e veículos para uso na alimentação animal. Brasília: MAPA, 2020. Acessar a fonte.
Organismos internacionais e normas técnicas
FAO. The role of livestock in circular bioeconomy systems. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2025. ISBN 978-92-5-140091-3. DOI: https://doi.org/10.4060/cd6765en.
Artigos e livros técnicos
AXMANN, S.; ADLER, A.; BRANDSTETTNER, A. J.; SPADINGER, G.; WEISS, R.; STRNAD, I. Species identification of processed animal proteins (PAPs) in animal feed containing feed materials from animal origin. Food Additives & Contaminants: Part A, v. 32, n. 7, p. 1089-1098, 2015. DOI: https://doi.org/10.1080/19440049.2015.1036321.
BOTTERO, M. T.; DALMASSO, A.; NUCERA, D.; TURI, R. M.; ROSATI, S.; SQUADRONE, S.; GORIA, M.; CIVERA, T. Development of a PCR assay for the detection of animal tissues in ruminant feeds. Journal of Food Protection, v. 66, n. 12, p. 2307-2312, 2003. DOI: https://doi.org/10.4315/0362-028X-66.12.2307.
BUHR, R. J.; NORTHCUTT, J. K.; LYON, C. E.; ROWLAND, G. N. Influence of time off feed on broiler viscera weight, diameter, and shear. Poultry Science, v. 77, n. 5, p. 758-764, 1998. DOI: https://doi.org/10.1093/ps/77.5.758.
COLGAN, S.; O'BRIEN, L.; MAHER, M.; SHILTON, N.; McDONNELL, K.; WARD, S. Development of a DNA-based assay for species identification in meat and bone meal. Food Research International, v. 34, n. 5, p. 409-414, 2001. DOI: https://doi.org/10.1016/S0963-9969(00)00185-X.
CRAWLEY, S. W.; SLOAN, D. R.; HALE, K. K. Yields and composition of edible and inedible by-products of broilers processed at 6, 7, and 8 weeks of age. Poultry Science, v. 59, p. 2243-2246, 1980. DOI: https://doi.org/10.3382/ps.0592243.
DEAVILLE, E. R.; MADDISON, B. C. Detection of transgenic and endogenous plant DNA fragments in the blood, tissues, and digesta of broilers. Journal of Agricultural and Food Chemistry, v. 53, n. 26, p. 10268-10275, 2005. DOI: https://doi.org/10.1021/jf051652f.
FREZZA, D. et al. A competitive polymerase chain reaction-based approach for the identification and semiquantification of mitochondrial DNA in differently heat-treated bovine meat and bone meal. Journal of Food Protection, v. 66, n. 1, p. 103-109, 2003. DOI: https://doi.org/10.4315/0362-028X-66.1.103.
FUMIÈRE, O.; DUBOIS, M.; BAETEN, V.; VON HOLST, C.; BERBEN, G. Effective PCR detection of animal species in highly processed animal byproducts and compound feeds. Analytical and Bioanalytical Chemistry, v. 385, p. 1045-1054, 2006. DOI: https://doi.org/10.1007/s00216-006-0533-z.
GAO, H.-W.; ZHANG, D.-B.; PAN, A.-H.; LIANG, W.-Q.; LIANG, C.-Z. Multiplex polymerase chain reaction method for detection of bovine materials in foodstuffs. Journal of AOAC International, v. 86, n. 4, p. 764-767, 2003. DOI: https://doi.org/10.1093/jaoac/86.4.764.
HERTRAMPF, J. W.; PIEDAD-PASCUAL, F. Poultry by-product meal. In: HERTRAMPF, J. W.; PIEDAD-PASCUAL, F. Handbook on ingredients for aquaculture feeds. Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2000. p. 330-337. DOI: https://doi.org/10.1007/978-94-011-4018-8_35.
KLOTZ, A.; MAYER, J.; EINSPANIER, R. Degradation and possible carry over of feed DNA monitored in pigs and poultry. European Food Research and Technology, v. 214, p. 271-275, 2002. DOI: https://doi.org/10.1007/s00217-001-0444-3.
MACELLINE, S. P.; McQUADE, L. R.; McINERNEY, B. V.; MOSS, A. F.; SELLE, P. H.; LIU, S. Y. Protein digestive dynamics of meat and bone meals in broiler chickens. Animal Nutrition, v. 6, n. 4, p. 521-528, 2020. DOI: https://doi.org/10.1016/j.aninu.2020.04.005.
MAY, J. D.; DEATON, J. W. Digestive tract clearance of broilers cooped or deprived of water. Poultry Science, v. 68, p. 627-630, 1989. DOI: https://doi.org/10.3382/ps.0680627.
MYERS, M. J.; FARRELL, D. E.; DEAVER, C. M.; MASON, J.; SWAIM, H. L.; YANCY, H. F. Detection of rendered meat and bone meals by PCR is dependent on animal species of origin and DNA extraction method. Journal of Food Protection, v. 73, n. 6, p. 1090-1096, 2010. DOI: https://doi.org/10.4315/0362-028X-73.6.1090.
NATONEK-WIŚNIEWSKA, M.; KRZYŚCIN, P.; PIESTRZYŃSKA-KAJTOCH, A. The species identification of bovine, porcine, ovine and chicken components in animal meals, feeds and their ingredients, based on COX I analysis and ribosomal DNA sequences. Food Control, v. 34, n. 1, p. 69-78, 2013. DOI: https://doi.org/10.1016/j.foodcont.2013.04.014.
NESIC, K.; PAVLOVIC, N.; PAVLOVIC, M.; TASIC, A.; KURELJUSIC, J.; ROKVIC, N.; RADOSAVLJEVIC, V. Testing animal feed for the presence of ruminant DNA using the official real-time PCR method. IOP Conference Series: Earth and Environmental Science, v. 333, 012086, 2019. DOI: https://doi.org/10.1088/1755-1315/333/1/012086.
NORTHCUTT, J. K.; BUHR, R. J.; DICKENS, J. A. Effect of electrical stimulation and feed withdrawal on broiler gastrointestinal content and intestinal pH, and intestinal breaking strength of broiler breeders. Journal of Applied Poultry Research, v. 11, n. 1, p. 1-5, 2002. DOI: https://doi.org/10.1093/japr/11.1.1.
NORTHCUTT, J. K.; SAVAGE, S. I.; VEST, L. R. Relationship between feed withdrawal and viscera condition of broilers. Poultry Science, v. 76, n. 2, p. 410-414, 1997. DOI: https://doi.org/10.1093/ps/76.2.410.
ROSSI, F.; MORLACCHINI, M.; FUSCONI, G.; PIETRI, A.; MAZZA, R.; PIVA, G. Effect of Bt corn on broiler growth performance and fate of feed-derived DNA in the digestive tract. Poultry Science, v. 84, n. 7, p. 1022-1030, 2005. DOI: https://doi.org/10.1093/ps/84.7.1022.
SIERADZKI, Z.; MAZUR, M.; KWIATEK, K.; ŚWIĄTKIEWICZ, S.; ŚWIĄTKIEWICZ, M.; KORELESKI, J.; HANCZAKOWSKA, E.; ARCZEWSKA-WŁOSEK, A.; GOLDSZTEJN, M. Assessing the possibility of genetically modified DNA transfer from GM feed to broiler, laying hen, pig and calf tissues. Polish Journal of Veterinary Sciences, v. 16, n. 3, p. 435-441, 2013. DOI: https://doi.org/10.2478/pjvs-2013-0061.
SMITH, D. P.; BERRANG, M. E. Prevalence and numbers of bacteria in broiler crop and gizzard contents. Poultry Science, v. 85, n. 1, p. 144-147, 2006. DOI: https://doi.org/10.1093/ps/85.1.144.
ŚWIĄTKIEWICZ, S.; TWARDOWSKA, M.; MARKOWSKI, J.; MAZUR, M.; SIERADZKI, Z.; KWIATEK, K. Fate of transgenic DNA from Bt corn and Roundup Ready soybean meal in broilers fed GMO feed. Bulletin of the Veterinary Institute in Pulawy, v. 54, p. 237-242, 2010. Acessar a fonte. Acesso em: 27 out. 2026.





Comentários