Do Rendering ao Superfood: A Ciência por trás da Farinha de Pescado na Nutrição Humana
- Adauto Pereira Gomes Neto
- 15 de jan.
- 4 min de leitura
Uma análise técnica da parceria ABRA/Ital e das validações científicas da UEM
Farinha de Pescado na Nutrição Humana: Ciência e Segurança

O setor de reciclagem animal brasileiro, historicamente a base da cadeia de nutrição animal e química, encontra-se diante de sua fronteira mais ambiciosa: a alimentação humana. O movimento, liderado pela Associação Brasileira de Reciclagem Animal (ABRA), ganhou tração através de uma agenda estratégica com o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), visando a validação técnica e regulatória para o uso de farinhas do setor em suplementos para atletas.
Contudo, para transformar commodities em ingredientes de alto valor agregado, é preciso transpor barreiras sanitárias e culturais. É aqui que a universidade desempenha um papel crucial. Uma revisão dos trabalhos conduzidos pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) revela que o Brasil já domina a tecnologia para converter o passivo da piscicultura em ingredientes nobres, seguros e sensorialmente aprovados.
Protocolo de Segurança na Produção de Farinha de Pescado
O principal gargalo para a entrada do setor na alimentação humana é a garantia de inocuidade. Enquanto a ABRA busca protocolos que assegurem "critérios técnicos e sanitários específicos" — priorizando resíduos do comércio em detrimento do abate direto — a ciência já estabeleceu o "padrão ouro" de processamento.
Em estudo sobre a produção de farinhas a partir de carcaças de tilápia, pacu e carpa, Souza et al. (2021b) detalham um fluxograma rigoroso:
Limpeza e Sanitização: Lavagem das carcaças em solução clorada.
Esterilização Comercial: Cozimento sob pressão por 60 minutos. Esta etapa é crítica, pois garante a eliminação de patógenos (como Salmonella) e atende às normas da legislação brasileira.
Estabilização: Prensagem (10 toneladas) para remoção de gordura, seguida de desidratação e moagem.
Densidade Nutricional: Por que a Farinha de Pescado Supera o Mercado
O argumento econômico para o uso dessas farinhas reside na sua composição centesimal. O trabalho seminal de Souza et al. (2017) analisou farinhas de resíduos de quatro espécies, apresentando resultados que desafiam suplementos tradicionais, como o Whey Protein.
Tabela de Proteína Bruta da Farinha de Pescado por Espécie As análises laboratoriais indicaram os seguintes teores de proteína na farinha de pescado:
Espécie | Parte Utilizada | Proteína Bruta (%) | Destaque Nutricional |
Atum | Tronco | 83,28% | Altíssima concentração proteica |
Sardinha | Cauda/Aparas | 61,88% | Rica em Ômega-3 e Ferro |
Salmão | Carcaça | 60,42% | Fonte de ácidos graxos essenciais |
Tilápia | Carcaça | 50-60% | Alta aceitação sensorial |
Além da proteína, o processamento da estrutura óssea transforma essas farinhas em fontes naturais de Cálcio (até 9,37%) e Fósforo, com alta biodisponibilidade.
Aplicações Práticas da Farinha de Pescado em Alimentos: Muito Além do Shake
A viabilidade comercial depende de sabor. As pesquisas provam que a farinha de pescado permite o desenvolvimento de "comida de verdade", indo além dos shakes.
Snacks e Cookies Enriquecidos com Farinha de Pescado
Snacks Extrusados (Conveniéncia): Souza et al. (2021a) desenvolveram snacks de milho com farinha de aparas de tilápia defumada. A inclusão de 15% da farinha elevou o teor proteico para 13,66%, mantendo a crocância.
Panificação Gluten-Free: Souza et al. (2022) incorporaram farinhas de salmão, atum e sardinha em cookies de tapioca. A adição de 9% de farinha não afetou a aceitação e enriqueceu o produto com lipídios funcionais, ideal para a merenda escolar.
Food Service: Coradini et al. (2020) e Souza et al. (2021c) validaram o uso em massas de esfirra e sopas instantâneas. O sabor "umami" natural do pescado atua como realçador, permitindo produtos saborosos e nutritivos.

Sopas e Caldos com Farinha de Pescado na Merenda Escolar
A versatilidade se estende a pratos quentes. Godoy et al. (2010) validaram o uso de farinha de pescado em caldos e canjas. A análise sensorial mostrou excelente aceitação, provando que o ingrediente atua como realçador de sabor natural (umami).
O movimento da ABRA em direção ao Ital é o passo científico necessário para destravar um gigante. No entanto, a base técnica já está consolidada. O Brasil possui a matéria-prima, a tecnologia de processamento validada por estudos como estes apresentados e todo o potencial de mercado. Transformar resíduos em superalimentos não é futurologia; é uma realidade científica pronta para virar nota fiscal.
Referências Bibliográficas:
ABRA. ABRA explora rotas tecnológicas para levar o uso de farinhas do setor em suplementos humanos e animais. Disponível em: https://abra.ind.br. Acesso em: 15 jan. 2026.
CORADINI, M. F. et al. Inclusão de farinha de peixes de diferentes espécies em massa de esfirra aberta. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DA AGROINDÚSTRIA (CIAGRO), 2020. Anais... [S.l.]: CIAGRO, 2020. DOI: 10.31692/ICIAGRO.2020.0379.
GODOY, L. C. de et al. Análise sensorial de caldos e canjas elaborados com farinha de carcaças de peixe defumadas: aplicação na merenda escolar. Ciência e Tecnologia de Alimentos, Campinas, v. 30, n. suppl 1, p. 24-28, maio 2010. DOI: 10.1590/S0101-20612010000500014.
SOUZA, M. L. R. de et al. Formulation of fish waste meal for human nutrition. Acta Scientiarum. Technology, Maringá, v. 39, n. 5, p. 525-531, 2017. DOI: 10.4025/actascitechnol.v39i5.29723.
SOUZA, M. L. R. de et al. Inclusion levels of flour made from smoked Nile tilapia trimmings in extruded corn snacks. Research, Society and Development, v. 10, n. 8, e33410817243, 2021a. DOI: 10.33448/rsd-v10i8.17243.
SOUZA, M. L. R. de et al. Produção de farinhas a partir de carcaças de tilápia, pacu e carpa para inclusão em produtos alimentícios. Research, Society and Development, v. 10, n. 16, e583101621134, 2021b. DOI: 10.33448/rsd-v10i16.21134.
SOUZA, M. L. R. de et al. Sopa instantânea com inclusão de farinhas de peixes. Research, Society and Development, v. 10, n. 8, e35910817247, 2021c. DOI: 10.33448/rsd-v10i8.17247.
SOUZA, M. L. R. de et al. Fish carcass flours from different species and their incorporation in tapioca cookies. Future Foods, v. 5, 100132, 2022. DOI: 10.1016/j.fufo.2022.100132.




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