Cadê a farinha de carne? Mercado vira de superávit para déficit
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O balanço mensal da AniVertis mostra a farinha de carne e ossos bovina (FCO) em déficit. Em agosto de 2026, a farinha produzida no Brasil ficou cerca de 10,4 mil toneladas abaixo da soma da exportação com o consumo interno estimado. Um ano antes, em agosto de 2025, sobravam cerca de 49,5 mil toneladas. A estimativa preliminar de setembro de 2026 aponta déficit de cerca de 15,3 mil toneladas. Três fatores explicam a virada: menos boi abatido, mais farinha exportada e mais consumo estimado na ração de aves e suínos. O balanço é um indicador de disponibilidade, não uma previsão de preço.
Por que a oferta de farinha de carne e ossos depende do abate bovino?
A graxaria influencia quanto produz, pelo rendimento, pela capacidade e pelas decisões operacionais, mas não controla a geração da matéria-prima. Ela processa o que o abate entrega: ossos, gordura, vísceras e aparas que não vão para o consumo humano (o caminho desse material está em Resíduo ou matéria-prima? O destino do que sobra do abate). Na terminologia da FAO, isso é subproduto do abate, um fluxo inevitável, e não uma saída planejada (a diferença está em Coproduto, subproduto, resíduo e rejeito: dúvidas frequentes).
Por isso, preço mais alto da farinha atrai pouca farinha nova: há algum espaço em rendimento, direcionamento comercial e estoques, mas o volume de verdade só cresce quando se abate mais boi. Quem define a quantidade é o mercado da carne (Piggott e Wohlgenant, 2002).
Como a AniVertis calcula o déficit de farinha de carne?
Saldo do mês = FCO produzida − exportação − consumo interno estimado
Produção: o abate bovino do mês (MAPA/SIF) multiplicado por coeficientes técnicos. Com peso vivo médio de 502 kg (IBGE), 38% de matéria-prima de graxaria (faixa de 30% a 45% na literatura, Goldstrand, 1988, e Fernando, 1992; base também adotada pela ABRA) e 33% de rendimento em farinha (premissa técnica da AniVertis), cada boi gera cerca de 63 kg de FCO. São coeficientes de estimação, não pesagens.
Exportação: dado oficial da SECEX, NCM 2301.10.10 (farinhas de carne). A classificação aduaneira não identifica a espécie de origem, e a série é usada como aproximação da FCO bovina exportada. A NCM 2301.10.90 (farinhas de miudezas), que inclui outros materiais, fica fora do balanço; somá-la inteira à exportação, sem recalibrar o consumo, levaria o saldo para cerca de +21,0 mil t em ago/25, −49,8 mil t em ago/26 e −53,1 mil t em set/26: o déficit fica maior, e a virada se mantém. No teste de associação com o preço, a inclusão também não piorou o acerto da direção (59% a 62%, contra 56,5% na série principal, sem considerar o atraso de publicação do MAPA).
Consumo interno: estimado pela ração de aves e suínos, com o preço do milho como indicador das condições de formulação, calibrado no histórico de 2015 a 2026.
Saldo positivo (superávit) indica que a produção estimada do mês superou as saídas estimadas. Saldo negativo (déficit) indica o contrário: as saídas superaram a produção. Diferente dos grãos, a farinha de carne não comporta grandes estoques: na prática comercial acompanhada pela AniVertis, a validade usual gira em torno de 90 dias no mercado interno e chega a 12 meses em operações de exportação, conforme processamento, embalagem e contrato. São referências de mercado, não limites técnicos universais. Em um mercado com estocagem tão limitada, o déficit tende a pressionar os estoques disponíveis e a oferta comercial. Mas não existe dado oficial de estoque de FCO: o balanço não mede o estoque físico nem comprova desabastecimento.
O que mudou na produção e na exportação de FCO entre 2025 e 2026?
por mês | ago/25 | ago/26 | set/26 (preliminar) |
|---|---|---|---|
Boi abatido (MAPA/SIF; set. = SIGSIF estimado) | 2.631 mil cab. | 2.201 mil cab. | 2.176 mil cab. |
FCO produzida (estimada) | 165.638 t | 138.573 t | 136.983 t |
− Exportação (SECEX) | 2.580 t | 12.904 t | 10.777 t |
− Consumo interno (estimado) | 113.606 t | 136.117 t | 141.549 t |
= Saldo do mês | +49.453 t | −10.449 t | −15.343 t |
Os componentes estão arredondados para a tonelada; o saldo é calculado com os valores não arredondados, por isso a conta da tabela pode diferir em 1 t. Setembro é preliminar: o MAPA ainda não publicou o abate do mês, e o número vem do SIGSIF, extrapolado para o total nacional. Quando o MAPA publicar, o preliminar será comparado ao dado oficial.
Entre agosto de 2025 e agosto de 2026, os três lados se moveram contra a sobra de farinha:
Menos boi: o abate sob SIF caiu 16,3%, e a produção estimada de FCO caiu na mesma proporção.
Mais exportação: os embarques de farinhas de carne foram de 2,6 mil para 12,9 mil toneladas no mês. De janeiro a setembro de 2026, somaram cerca de 99,8 mil toneladas, o dobro de 2025.
Mais consumo estimado: o número de aves e suínos alimentados cresceu 5%, e o milho mais caro em relação à média de 12 meses elevou a estimativa de uso de farinha na ração.
O ciclo do boi pode reduzir a oferta de farinha de carne?
A participação de fêmeas no abate antecipa o abate total: quando o pecuarista retém matrizes, as fêmeas caem e o abate cai nos meses seguintes. Hoje as fêmeas são 32,4% do abate, 6,3 pontos abaixo de um ano antes. O modelo da AniVertis com fêmeas e boi gordo projeta abate 13,6% menor em 3 meses e 11% menor em 6 meses, contra o mesmo período do ano anterior. Em testes só com dados já publicados em cada data, esse modelo acertou se o abate ia subir ou cair em 75% das vezes no horizonte de 3 meses e em 69% no de 6 meses. Quanto da estrutura de abate está em uso hoje está no Índice AniVertis de capacidade frigorífica.
O déficit de farinha de carne significa aumento de preço?
Saldo: produção − exportação − consumo interno estimados, média móvel de três meses. Preço: mediana mensal do Índice AniVertis de preços transacionados de FCO, nominal, R$/t.
Na série histórica, os déficits de 2020 e 2021 antecederam os maiores preços da farinha, e os superávits de 2023 a 2025 coincidiram com preços mais baixos. Em outubro de 2026, a mediana do Índice AniVertis de preços transacionados de FCO está em R$ 1.950 por tonelada, o maior nível desde 2023.
A relação, porém, não é perfeita. Em 2016 houve déficit sem alta relevante de preço. E o abate oficial do MAPA sai com cerca de dois meses de atraso: nos testes feitos como na prática, só com os dados já publicados, o balanço acertou a direção do preço em 52% dos casos, contra 50% de uma regra simples que aposta sempre em alta. Por isso o saldo é uma leitura da oferta, não uma previsão de preço. A AniVertis registra a leitura de cada mês desde outubro de 2026 para medir o desempenho em tempo real.
O que observar nos próximos meses
Abate de setembro no MAPA: confirma ou corrige a estimativa preliminar.
Participação de fêmeas: se continuar caindo, o abate tende a seguir menor.
Exportação de farinhas de carne: com embarques no dobro de 2025, sobra menos farinha no mercado interno.
Milho: o preço em relação à média de 12 meses entra na estimativa de consumo.
A AniVertis passa a publicar o balanço todo mês, quando o MAPA divulgar o abate.
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Referências
Organismos internacionais e normas técnicas
FAO. LEAP — Livestock Environmental Assessment and Performance Partnership: diretrizes de alocação para subprodutos de abate. Roma: FAO, 2016.
Dados do setor
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RECICLAGEM ANIMAL (ABRA). I Diagnóstico da Indústria Brasileira de Reciclagem Animal. ABRA, 2011.
IBGE. Pesquisa Trimestral do Abate de Animais, SIDRA tabela 1092. Disponível em: sidra.ibge.gov.br.
Artigos e livros técnicos
FERNANDO, T. Blood meal, meat and bone meal and tallow. In: PRICE, J. F.; SCHWEIGERT, B. S. (ed.). Inedible meat by-products. Dordrecht: Springer, 1992. DOI: https://doi.org/10.1007/978-94-011-7933-1_5.
GOLDSTRAND, R. E. Edible meat products: their production and importance to the meat industry. In: Edible meat by-products. 1988. Citado por WHITEHEAD, C. C.; CHURCH, D. C.; KNIGHT, A. D. New animal-derived ingredients. Springer, 1993. DOI: https://doi.org/10.1007/978-1-4615-2115-0_2.
MAPA. Relatório de abates por espécie e sexo (SIF), 2002–2026; SIGSIF. Disponível em: gov.br/agricultura.
PIGGOTT, N. E.; WOHLGENANT, M. K. Price elasticities, joint products, and international trade. Australian Journal of Agricultural and Resource Economics, 2002. DOI: 10.1111/1467-8489.t01-1-00056.
SECEX/MDIC. ComexStat, NCM 2301.10.10. Disponível em: comexstat.mdic.gov.br.




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