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Para onde vai o sebo bovino do Brasil? Exportações disparam e balanço revela lacunas nos dados

há 11 minutos
9 min de leitura

Resposta rápida

O sebo bovino produzido no Brasil abastece principalmente o biodiesel, a saboaria e a oleoquímica, além da exportação. Segundo o balanço mensal da AniVertis, a produção estimada a partir do abate sob inspeção sanitária alcançou cerca de 1,96 milhão de toneladas em 2025. A produção parte do abate sob inspeção federal (SIF), expandido para o total sob inspeção federal, estadual e municipal registrado pelo IBGE; os dados de 2026 são parciais, de janeiro a setembro. Desse total, cerca de 578 mil toneladas foram para o biodiesel, segundo a gordura bovina declarada à ANP, e 401 mil toneladas às exportações registradas como sebo bovino, ante 22 mil toneladas em 2021.

O saldo residual estimado foi de cerca de 976 mil toneladas, a oferta não atribuída a esses dois destinos. Esse valor não representa estoque físico nem consumo industrial medido.

A comparação com as estatísticas da ABRA mostra diferenças relevantes entre estimativas de produção e destinos. Elas ainda não podem ser lidas como falta ou sobra física de sebo, porque as bases têm classificações e abrangências diferentes.

Como o balanço é feito

Saldo do mês = sebo produzido − sebo consumido no biodiesel − exportação

Produção (estimada). O abate bovino do mês, separado por sexo, multiplicado por coeficientes técnicos da AniVertis: peso vivo de 502 kg por bovino, premissa técnica fixa da AniVertis, 38% do peso vivo como matéria-prima de graxaria e rendimento em sebo de 22% dessa matéria-prima nos machos e 26% nas fêmeas. Isso equivale a cerca de 42 kg de sebo por macho e 50 kg por fêmea, ou 8,4% e 9,9% do peso vivo. Os rendimentos de 22% e 26% são premissas do modelo, não medições; o rendimento maior das fêmeas é uma hipótese: o teor de gordura varia com idade, raça, alimentação e condição corporal. O IBGE (SIDRA, tabela 1092) publica peso de carcaça, não peso vivo; reconstruções indicativas com rendimentos de carcaça de 54% para machos e 50% para fêmeas, considerando o conjunto dos tipos de inspeção, resultaram em aproximadamente 507 kg em 2022, 500 kg em 2023, 497 kg em 2024 e 494 kg em 2025. Esses valores contextualizam a ordem de grandeza da premissa, mas não constituem sua validação. O abate sob inspeção federal (SIF), publicado mês a mês, é expandido para o abate total do IBGE, que inclui a inspeção estadual e municipal; em 2025, o SIF respondeu por 71% dos bovinos abatidos sob inspeção sanitária (federal, estadual ou municipal), não de todo o abate do país; o abate sem inspeção fica fora da estimativa. O cenário central supõe que o abate fora do SIF rende o mesmo sebo por animal; em cenários de recuperação relativa de 80% e 120% desse rendimento (cenários, não intervalo estatístico), o saldo de 2025 iria de cerca de 860 mil a 1,09 milhão de toneladas.

A ABRA usa rendimento de 18% da matéria-prima, adaptado de referências europeias (COWI, 1999; IPPC, 2005; UNEP, 2002, entre outras, citadas no II Diagnóstico da ABRA). Com rendimento uniforme de 18%, a produção estimada de 2025 seria de cerca de 1,48 milhão de toneladas e o saldo residual, de cerca de 500 mil; com 20% para machos e 24% para fêmeas, 1,79 milhão e 813 mil; no cenário central da AniVertis (22% e 26%), 1,96 milhão e 976 mil.

Biodiesel (dado declarado). Gordura bovina usada na produção de biodiesel, declarada mês a mês pelas usinas à ANP (base do Painel Dinâmico de Produtores de Biodiesel, atualizada em 27/10/2026, com dados até setembro de 2026), convertida a 0,86 t/m³. A ANP separa as gorduras animais em bovina, de porco e de frango; a bovina respondeu por 79,4% delas em 2025 e por 81,8% de janeiro a setembro de 2026. A versão anterior deste texto aplicava um fator fixo de 79% sobre as gorduras animais divulgadas pela ABIOVE; com a série da ANP, esse fator deixou de ser necessário. O total de biodiesel de 2025 na base da ANP (9,94 milhões de m³) coincide com o divulgado pela ABIOVE.

Exportação (registro aduaneiro). Dados da SECEX no subgrupo 1502.10.1 da NCM, "Sebo bovino": 1502.10.11 (em bruto), 1502.10.12 (fundido, incluindo o premier jus) e 1502.10.19 (outros), conforme a tabela NCM vigente desde 1º de abril de 2022 (Portal Único Siscomex, consulta em 16/10/2026). Os mesmos códigos já constavam com essa estrutura em anos anteriores (Anuário ABRA 2018, p. 19). A subposição 1502.10.90 (outros sebos, não bovinos) e a 1502.90.00 (outras gorduras) ficam fora. A 1502.10.12 concentra 95% do volume de 2025. A NCM registra o produto declarado pelo exportador.

O que mudou entre 2021 e 2026

mil toneladas

2021

2023

2024

2025

2026 (jan–set)

Sebo produzido (estimado)

1.234

1.540

1.795

1.956

1.383

− Biodiesel (gordura bovina declarada à ANP)

450

377

507

578

429

− Exportação (SECEX, sebo bovino)

22

245

320

401

278

= Saldo residual estimado

762

917

968

976

677

Os totais podem diferir em uma unidade por arredondamento. Em 2026, a produção de julho a setembro usa a expansão do abate SIF para o total do IBGE pela razão média dos doze meses anteriores, porque o IBGE ainda não publicou esses meses; o número será revisto quando o dado sair. De janeiro a setembro de 2025, os mesmos itens somaram 1,46 milhão de toneladas produzidas, 377 mil no biodiesel, 383 mil exportadas e saldo de 697 mil.

No ano a ano, o preço médio do sebo bruto subiu e caiu junto com o do óleo de soja degomado, seu principal concorrente no biodiesel, ambos na mesma tabela de cotações (ABISA) e na mesma base CIF. O sebo ficou acima do óleo de 2021 a 2024 e abaixo dele em 2025 e 2026. O volume exportado, que cresceu sem parar, não teve o mesmo desenho.

O uso de sebo no biodiesel caiu de 8% a 9,5% da produção de biodiesel no último trimestre de 2025 para perto de 5% entre abril e agosto de 2026 e voltou a 7,4% em setembro (ANP).

A exportação passou de 2% para 21% da produção estimada em quatro anos. Em 2025, 97% foi para os Estados Unidos. O registro americano aponta volume semelhante, embora a posição HS 1502.10 dos EUA tenha abrangência própria e não seja idêntica ao subgrupo brasileiro de sebo bovino: o US Census contabilizou cerca de 370 mil toneladas importadas do Brasil na posição HS 1502.10 em 2025 (peso embarcado, importações gerais), 95% do que a SECEX registrou como embarcado para os EUA no ano. A diferença pode refletir, entre outros fatores, defasagens entre embarque e desembaraço.

Em 2026, de janeiro a setembro, os Estados Unidos receberam 82% do volume, ante 97% em 2025; Países Baixos, Bélgica, Malásia e Singapura somaram 14%.

O que o preço mostra

2021

2022

2023

2024

2025

2026 (jan–set)

Valor médio de exportação (FOB, US$/t)

1.651

1.595

1.236

965

1.102

1.221

Referência interna (US$/t)¹

1.339

1.408

1.029

1.002

1.159

1.214

FOB ÷ referência interna

123%

113%

120%

96%

95%

101%

¹ Cotação do sebo bruto CIF São Paulo (ABISA), convertida pelo dólar PTAX do mês e ponderada pelo volume exportado em cada mês.

Até 2023, o valor médio FOB das exportações ficou de 13% a 23% acima da referência interna. Em 2024 e 2025, ficou cerca de 4% e 5% abaixo; de janeiro a setembro de 2026, 1% acima. A diferença deve ser lida com cautela: as séries têm bases comerciais diferentes (FOB no porto e CIF São Paulo), datas de contratação distintas e possivelmente especificações de produto diferentes. Os registros americanos mostram movimento semelhante no valor médio: de US$ 1.476 por tonelada em 2022 para US$ 1.015 em 2024.

O preço interno chegou ao nível da exportação. Até 2023, quando a exportação era pequena, vender para fora pagava 13% a 23% a mais que a cotação interna. Desde 2024, com cerca de 20% da produção estimada indo para fora, os dois preços ficaram no mesmo patamar: o valor de exportação foi 96% do interno em 2024, 95% em 2025 e 101% de janeiro a setembro de 2026. Isso é compatível com um preço interno formado perto do que se recebe exportando. Mês a mês, porém, os dois nem sempre sobem e descem juntos, e estar no mesmo nível não prova que um determine o outro. Também não se sabe a composição exata do produto exportado, o valor de exportação não desconta o frete até o porto, e o câmbio mexe nas duas séries.

O preço sobe quando se exporta mais? Não de forma regular. Nos meses de maior volume exportado, o preço não foi sistematicamente mais alto: ele caiu em 2023, justamente quando a exportação começou a crescer, e de um mês para o outro as duas séries praticamente não andam juntas. O mesmo vale para o saldo residual. Andar junto ou não, nesses números, não prova causa: o preço também depende do sebo usado no biodiesel, do câmbio, do óleo de soja e da demanda de diesel renovável nos Estados Unidos. O balanço não serve para prever preço.

Por que os números do sebo não coincidem?

O Anuário ABRA 2025 estima a produção brasileira de sebo bovino em 1,49 milhão de toneladas. A mesma publicação divide o consumo de 2,1 milhões de toneladas de gorduras de origem animal de todas as espécies (sebo bovino, gordura suína, óleo de aves e óleo de pescado) por destino: 39,5% para a saboaria, cerca de 830 mil toneladas, e 34,6% para o biodiesel. Os 830 mil toneladas se referem, portanto, ao conjunto das gorduras animais, e não só ao sebo bovino.

A comparação preliminar dos indicadores de 2025 evidencia uma diferença de abrangência entre as fontes. A ABRA estima 1,49 milhão de toneladas de produção de sebo bovino e informa cerca de 830 mil toneladas de gorduras animais de todas as espécies destinadas à saboaria. A ANP registra cerca de 578 mil toneladas de sebo bovino usadas no biodiesel (gordura bovina declarada pelas usinas, convertida a 0,86 t/m³), e a SECEX registra 401 mil toneladas exportadas como sebo bovino.

A soma desses três destinos chega a cerca de 1,81 milhão de toneladas, mas não constitui um balanço físico homogêneo: combina gorduras de diferentes espécies e fontes com critérios distintos. A diferença de cerca de 319 mil toneladas em relação à produção estimada pela ABRA é um sinal de necessidade de conciliação estatística, não evidência de déficit físico. Ela pode ter três origens, que os dados públicos não permitem separar:

  1. Abrangência e rendimento da produção. A ABRA e a AniVertis usam rendimentos diferentes (18% contra 22% a 26% da matéria-prima). No cenário central da AniVertis, a produção de 2025 chega a 1,96 milhão de toneladas e o saldo residual a cerca de 976 mil toneladas após biodiesel e exportações, o que indica capacidade potencial de abastecer outros mercados, mas não permite quantificar diretamente o consumo de sebo bovino da saboaria.

  2. Composição das gorduras. A fatia da saboaria inclui gorduras animais que não são necessariamente bovinas.

  3. Classificação. As categorias industriais e os códigos aduaneiros não medem necessariamente o mesmo produto. Nos diagnósticos do setor, a própria ABRA registra que, nos critérios oficiais de produção, "não há diferenciação de sebos de animais diferentes" e que o sebo "genérico" inclui "o de bovinos, graxa suína e mistos" (ABRA, II Diagnóstico). A NCM separa o sebo bovino, mas registra o produto conforme declarado pelo exportador.

O resultado da AniVertis não demonstra, sozinho, que todos os destinos estejam contabilizados nem que o abate fora do SIF recupere o mesmo sebo que o SIF. Importações e variações de estoque também ficam fora do balanço.

O que o balanço não faz

O balanço não foi construído para prever preço, e os testes feitos até aqui não mostraram capacidade preditiva acima de regras simples. O balanço serve para acompanhar a estrutura da oferta e dos destinos, não para prever preço.

O que observar

  • Mandato do biodiesel: cada ponto de mistura obrigatória muda a demanda das usinas por gorduras.

  • Exportação: volume e valor médio de embarque, comparados à referência interna.

  • Abate e participação de fêmeas: pelo modelo, fêmeas rendem mais sebo; o ciclo do boi muda a oferta estimada.

  • Saboaria: o próximo Anuário ABRA permitirá acompanhar a evolução da destinação declarada à saboaria.

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Referências

Legislação e normas brasileiras

  • BRASIL. Portal Único Siscomex. Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), posição 15.02, vigente desde 01/04/2022. Acessar a fonte. Acesso em: 16 out. 2026.

Dados do setor

  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RECICLAGEM ANIMAL (ABRA). I Diagnóstico da Indústria Brasileira de Reciclagem Animal. Brasília, DF: ABRA (ano-base 2010). Acessar a fonte.

  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RECICLAGEM ANIMAL (ABRA). II Diagnóstico da Indústria Brasileira de Reciclagem Animal. Brasília, DF: ABRA (ano-base 2014). Acessar a fonte. O II Diagnóstico cita, para o rendimento de 18%, COWI (1999), IPPC (2005) e UNEP (2002), referências europeias aqui citadas de forma indireta.

  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RECICLAGEM ANIMAL (ABRA). Anuário ABRA 2025. Brasília, DF: ABRA, 2026. p. 27 (nomenclatura), p. 35–36 (produção e mercado consumidor de gorduras). Acessar a fonte.

  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INDÚSTRIAS DE ÓLEOS VEGETAIS (ABIOVE). Produção de biodiesel por matéria-prima (conferência do total anual de 2025). São Paulo: ABIOVE, 2026. Acessar a fonte.

  • AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS (ANP). Painel Dinâmico de Produtores de Biodiesel: base de dados (matéria-prima e produção, dados até setembro de 2026), atualizada em 27 out. 2026. Acessar a fonte. Acesso em: 2 nov. 2026.

  • IBGE. Pesquisa Trimestral do Abate de Animais, SIDRA tabela 1092. Disponível em: sidra.ibge.gov.br.

Artigos e livros técnicos

  • ABISA. Cotação do sebo bruto CIF São Paulo e do óleo de soja degomado (mesma tabela, base CIF), jan/2017 a out/2026. Disponível no site da ABISA.

  • MAPA. Relatório de abates por espécie e sexo (SIF). Disponível em: gov.br/agricultura.

  • SECEX/MDIC. ComexStat, NCM 1502.10. Disponível em: comexstat.mdic.gov.br.

  • U.S. CENSUS BUREAU. International Trade Data, general imports, HS 1502.10, origin Brazil. Acessar a fonte.

Versão de referência. Este texto está depositado no Zenodo como Série Técnica AniVertis nº 11/2026 (versão 1.1, 2 de novembro de 2026), DOI 10.5281/zenodo.23899716; todas as versões: 10.5281/zenodo.23749914. Para citação, use a versão depositada.

 
 
 

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